Tribuna do Leitor

O mundo pós-pandemia

Sérgio Mauro - O autor é professor doutor na Unesp de Araraquara
| Tempo de leitura: 3 min

O que será do mundo após o fim da pandemia? Não tendo uma bola de cristal nem poderes sobrenaturais, só me resta, portanto, apostar em reflexões baseadas nas minhas leituras de dados históricos e nas minhas fontes filosófico-literárias.

Na raiz das especulações sobre o que nos aguarda futuramente, está a tomada temerária de decisões que nos levaram à necessária quarentena, inédita na história da humanidade. Embora em outros séculos possam ser encontradas cá e lá imposições de "lockdown" ou coisas semelhantes, parece-me que nunca em nenhum momento metrópoles inteiras como Paris, Nova Iorque, Roma ou São Paulo "esvaziaram-se", ainda que parcialmente.

Teremos uma sociedade baseada na solidariedade e na mútua compreensão, como querem alguns? Sinceramente, não há como prever este futuro generoso e promissor tendo em vista o "background" humano. No passado, o fim das epidemias, assim como o término das guerras, levou a modificações no comportamento associadas quase sempre a formas de prevenção ou de cura como vacinas e recomendações de higiene pública, mas não conscientizou nem aperfeiçoou as mentes humanas.

Deve-se considerar que raramente aprendemos com nossos próprios erros. Quando será a última e definitiva guerra que eliminará todas as possibilidades de outras futuras guerras? Quando ocorrerá a última epidemia? As guerras poderiam ser evitadas se houvesse menos egoísmo e se houvesse empenho das lideranças políticas em buscar a paz, mas as epidemias e doenças em geral fazem parte da dinâmica das forças naturais e atingem todos os seres vivos, sem exceção. Podemos enfrentá-las de vários modos, mas nunca conseguiremos ou dificilmente chegaremos à vitória definitiva nessa batalha.

Com o fim da quarentena, que já está ocorrendo lentamente em alguns países europeus, retomaremos a rotina de antes, talvez com mais cautela, provavelmente com muito receio. Enfrentaremos uma longa crise econômica devida à paralisação completa ou parcial do comércio, das atividades industriais e do deslocamento de pessoas. Escreveremos uma página inédita nos livros de história que nossos netos e bisnetos vão ler com avidez. Quanto ao resto, porém, nada deverá mudar.

Insuflar nos humanos um espírito de solidariedade constitui tarefa dificílima. Normalmente estamos sujeitos a pressões cotidianas que nos levam a disputar espaços ao sol, seja na forma de busca incessante de empregos e oportunidades de todos os tipos, seja nos anseios de boa saúde, tranquilidade financeira ou equilíbrio psíquico.

As forças vitais que movem o mundo "exigem" que procuremos nos manter vivos, mesmo quando mandam sinais de morte e extermínio. Ao longo dos séculos, nossas reações de rebeldia contra essa ordem natural nos levaram ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, para compensar nossas deficiências ou para minimizar o efeito de todos os tipos de males que nos afligiam e ainda afligem.

A procura incessante da felicidade constitui um mito até perigoso, enquanto a crença cega no aperfeiçoamento e no progresso contínuo dos humanos revela-se quase sempre utópica e simplista. Compreender sem medo as nossas fraquezas e fazer desta compreensão uma força revela-se a única possibilidade de encontrar uma forma de equilíbrio e de harmonia com as forças naturais que por vezes nos parecem assustadoras e cruéis, mas que se encaixam em um ciclo provavelmente eterno no qual somos apenas uma das tantas peças que ajudam a montar uma espécie de enorme quebra-cabeça, e nada mais.

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