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Descer do Moro

Evandro Joaquim, Jorge Moura e Thiago Azevedo
| Tempo de leitura: 3 min

A caminhada do presidente da República, com uma trupe de lobistas, pela Praça dos Três Poderes, na semana passada, com o claro intuito de emparedar o Supremo Tribunal Federal, foi mais um movimento num já longo roteiro de deslegitimação da Corte.

O papel do Poder Judiciário em uma democracia é realmente complicado de se entender, pois: seus atores não são eleitos pelo voto popular, mas suas decisões afetam a vida de todos; possui uma linguagem rebuscada, de difícil compreensão pela população em geral; sua forma ritualística parece muitas vezes um desserviço às demandas urgentes num país desigual como é o Brasil; e a "interpretação constitucional" e o "ativismo judicial" do STF, às vezes diametralmente opostos ao texto legal, lançam, para dizer o mínimo, suspeitas sobre o processo decisório.

É neste cenário turbulento, que incita a busca de soluções mágicas e de heróis de capa preta ou de novos messias, que o papel do juiz celebridade assumido por Sergio Moro durante anos deve ser cuidadosa e racionalmente analisado. A frase de Rosângela Moro, esposa do ex-juiz e ex-ministro, em 15 de fevereiro deste ano, é digna de profecia: Bolsonaro e Moro seriam uma coisa só.

Ilude-se quem acha que o divórcio ocorrido semanas atrás pode alterar o passado: Moro criou Bolsonaro e Bolsonaro criou Moro. Eles são irmãos siameses. Trata-se de um paradoxo, mas são ao mesmo tempo criador e criatura, ambos. As decisões do ex-juiz de Curitiba, ao esgarçarem a lei e a jurisprudência, demonstravam que Moro jogava para a torcida, para aplacar o sentimento de injustiça no peito do povo, este sedento de vingança. Moro encarna uma figura mítica, daquele que estica a corda da lei visando atingir uma justiça total (que no fundo é a boa e velha vingança, agora em roupa de gala). Moro - e não apenas Bolsonaro - é, neste sentido, coautor das ameaças aos poderes legislativo e judiciário vistos recentemente, pois foi ele (ladeado por muitos que desprezam a sacralidade da lei) um dos que sorrateiramente foram minando o poder do "texto da lei", única garantia que se tem, ao lado da "palavra" que dá sentido às coisas.

O ex-juiz e ex-ministro dá vazão ao grotesco que persiste na alma do brasileiro, essa vontade de justiça a todo custo, uma justiça "apesar da lei". Uma justiça que abdica do custo gigantesco que é propor, debater, conceder, transigir, até o ponto onde se tem uma lei madura para ser votada. Moro é a justiça preguiçosa de fazer seu trabalho, a justiça do "jeitinho", apesar de parecer eficiente. Bolsonaro, por sua vez, é o político do jeitinho, com alma de fundão de sala de aula, de quem faz bullying e ri da cara do colega, no contínuo afã de esconder suas fraquezas. O desprezo de Moro e Bolsonaro pela lei é evidente: ambos a veem como um mero detalhe. Nesse sentido, os dois se retroalimentam e colocam a democracia em perigo.

Uma democracia não resiste sem um Judiciário soberano, fortalecido e respeitado. A justiça não precisa de juízes parciais. O Poder Judiciário só é forte e independente quando não faz política. Ao fazer política, o Judiciário deixa de ser imparcial, pois se transforma em parte. Bolsonaro surfou a onda da anticorrupção nas costas de Moro.

Com a saída do ex-ministro, veio o tombo, as gravíssimas denúncias do agora "traidor", e a mudança do discurso presidencial. Entrou em cena o toma lá-dá-cá, com o famigerado "Centrão", que de "trocas espúrias" entende bastante. Bolsonaro vai ter que descer do Moro.

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