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Chegadas e partidas em supermercados

Fabiana Rosa
| Tempo de leitura: 2 min

Não dormiria tranquila sabendo que meus pais - idosos - estariam se aventurando pelos gôndolas da vida na atual conjuntura. Sendo assim, me autoproclamei "assessora para idas e vindas ao supermercado" de minha família. Toda vez encontro idosos solitários pelos corredores, empunhando suas cestinhas num ato que, não sabemos se de bravura, rebeldia ou pura necessidade. Não há como julgar, apenas pelas aparências, os motivos pelos quais estão ali e, a maioria que por eles passa o faz lançando olhares de reprovação e não de compaixão.

Fora isso, venho, também, acompanhando a distância de algumas portas e janelas dos meus vizinhos a convivência entre familiares confinados sob o mesmo teto: em alguns casos, o que deveria ser um lar seguro torna-se trincheira hostil. Amiúde, ouço, vindos do apartamento ao lado, apelos emocionados de uma mãe, implorando para a filha - adulta jovem - para que esta lave ao menos o prato em que acabara de comer ou para que abaixe o som do celular, pois ela - a mãe - gostaria de dormir. A filha, por sua vez, reiteradamente responde aos gritos que "não é empregada" e, ignorando o apelo sonolento da mãe por silêncio, segue-se, então, estrondoso bater de porta, que é pra deixar bem claro quem manda ali.

Outro dia, encontrei esta mesma vizinha-mãe nos corredores de um supermercado, arrastando suas dores apoiada num carrinho, comprando guloseimas para a filha fazer piquenique na madrugada. Contive o ímpeto de abraçá-la (abraços também estão em quarentena) e dizer-lhe aos ouvidos: "sempre gostei muito da senhora. A propósito; a mãe naquela casa é você! Tome as rédeas do seu próprio lar e faça valer seu direito de dormir tranquila". Mas não posso, ninguém ali pediu minha opinião, então, limitei-me a cumprimentá-la com um largo sorriso ao que ela retribuiu parecendo aliviada.

Mais do que qualquer outra coisa, a pandemia e seu consequentemente isolamento social está expondo o que há de pior na sociedade atual: a falta de amor e empatia, principalmente na intimidade. Que esse período nos dê discernimento para, num ato de reflexão, revermos e melhorarmos nossa postura com relação ao outro e ao bem-estar comum. A grande pandemia é a falta de amor. Tentemos reverter isso, com coisas simples, como um gentil sorriso.

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