"Se a quarentena funciona mesmo para conter o avanço do coronavírus, por que o número de casos continua aumentando cada vez mais e mais? Será que ela está fazendo alguma diferença mesmo ou será que a gene está sacrificando a economia à toa?". É com esta pergunta que o cientista de dados Maurício Féo inicia um vídeo que viralizou nas últimas semanas (e pode ser conferido em encurtador.com.br/kqCJT).
Postado em 30 de abril, o material em que ele demonstra e eficácia do isolamento social já acumula mais de 600 mil visualizações no YouTube. Engenheiro que está concluindo o PhD em Física de Partículas em Genebra, na Suíça, Féo concedeu uma entrevista ao JC, quando reiterou: o isolamento funciona, mas não dá resultado em um dia.
"É um processo e leva tempo, mas não duvide da eficácia da quarentena. Você não está preso em casa, você está a salvo em casa", afirma ele. Para seu estudo, o cientista de dados considerou o intervalo de 25 de fevereiro, quando o País registrou o primeiro caso, até 29 de abril, quando alcançou a marca de 79 mil casos. No gráfico de escala linear, a curva aparece em crescimento progressivo.
Porém, ao utilizar uma escala logarítmica, em que os números aumentam exponencialmente em potências de 10 (1, 10, 100, 1.000, 10.000 casos), é possível verificar que o Brasil não está seguindo uma curva exponencial perfeita - como normalmente acontece em pandemias, quando nenhuma medida de contenção é adotada.
ACHATAMENTO
Féo mostra que, até o dia 23 de março, período que acumulou os primeiros 1,5 mil casos, a epidemia se comportou de forma exponencial. Depois, contudo, deixou de seguir esta tendência e começou a desenhar uma curva menos íngreme. E um novo achatamento de trajetória ocorreu em um segundo momento.
"Em 23 de março, quando o Estado de São Paulo concentrava 40% dos casos do Brasil todo, a quarentena foi iniciada", pontua. Como medida de comparação, o pesquisador adota o exemplo dos Estados Unidos, que demorou a implementar medidas de contenção, fazendo com que a curva exponencial seguisse sua trajetória por mais tempo.
Assim, no mesmo ponto do gráfico em que o Brasil alcançou 79 mil casos, os EUA chegaram a 735 mil. "Só a partir de 22 de março, quando o estado de Nova York determinou que os trabalhadores não essenciais trabalhassem em home office, os EUA conseguiram se desprender da curva exponencial", detalha.
O volume de casos não contabilizados pelas estatísticas oficiais, segundo Féo, não afeta a análise, já que nos Estados Unidos, assim como no Brasil e também em países europeus, o volume de subnotificação também é alto.
"Embora os EUA estejam fazendo muito mais testes que o Brasil, lá, devido à falta de medidas de contenção, os casos estão numa proporção assustadora. E, assim como está sendo no Brasil, o número de casos reais provavelmente é ainda pior do que os confirmados", analisa.