Tribuna do Leitor

A escola que não temos

Daniel Pestana Mota, advogado, mestre em Ciências Sociais e articulador do Movimento CSE - Comunidades que Sustentam a Educação
| Tempo de leitura: 5 min

O mundo vive um dilema: isolar-se para preservar vidas, ou relaxar o isolamento para se possibilitar a exploração econômica e o trabalho. Algo, no entanto, subjaz essa incapacidade de se compreender uma questão senão por um único ponto de vista. Dizia Nietzsche que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. William Blake, que assim como Nietzsche foi lembrado por Rubem Alves em "A complicada arte de ver", certa vez afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Pois bem. Os tempos atuais provam que entre todas essas manifestações nitidamente contraditórias emerge uma questão que começa a incomodar um número cada vez maior de pessoas: para quê temos sido "treinados" no espaço da aprendizagem formal? Que tipo de conteúdo adolescentes e jovens experimentam, ao longo de 9 anos, e que depois se expande a nível superior? Não se trata, antes que alguém o diga, de denunciar o caráter meramente conteudista dos currículos escolares. Na verdade, arrisco-me a dizer que excetuando-se a educação infantil (e isso em alguns poucos locais), onde o brincar livre embasa uma dada predisposição da criança, que irá se desenvolver ora dando e recebendo do ambiente, ora aprimorando suas próprias disposições interiores, a humanidade parece não ter percebido o potencial reducionista que a chamada "grade curricular" (sim, o que é central na escola está preso numa grade!) encerra desde o ensino básico. Digo isso porque entre a teoria e a prática há inegável assimetria, e boa parte do que se encontra desenhado, teoricamente, nas bases nacionais comuns tem demonstrado não servir para a formação de pessoas que realmente possam compreender o mundo, enxergá-lo em suas múltiplas dimensões e contradições, e sobretudo diante destas últimas ousar transformá-lo. Até o presente momento, guiados por recomendações vindas da Organização Mundial de Saúde, o mundo todo, salvo raríssimas exceções, tem apontado o direito à vida (do qual faz parte o direito de ter acesso à tratamento médico em caso de adoecimento) como prevalente até mesmo ao maior dos direitos liberais, o da liberdade econômica. Até hoje não conseguimos, enquanto humanidade, construir uma possibilidade de que necessidades básicas sejam satisfeitas para que, num dado período, necessidades supérfluas possam ser deixadas de lado. O que ocorre é que tal opção contradiz aquilo que desde os tempos da revolução francesa, consolidado com o advento da máquina (revolução industrial), acreditamos ter sido a maior conquista da modernidade: o trabalho livre! Liberdade econômica e trabalho livre, irmãos siameses que o desenho do sistema capitalista conseguiu conceber como alicerce do desenvolvimento de todas as sociedades. Ora, se as pessoas se fazem no (e pelo) trabalho, obrigar que permaneçam em inatividade parece não fazer o menor sentido, ainda que tal se dê para que outros possam ser salvos, caso precisem. Também parece não fazer sentido interromper a atividade central de explorar a economia, e com esta exploração produzir mercadorias, muitas das quais apenas para satisfazer a cadeia de desejos que a humanidade logrou construir. O ápice da liberdade, chamado de trabalho livre, parece ter colocado em cheque não apenas o sentido da palavra liberdade, mas também a qualidade que teria sido agregada ao ato de trabalhar após o período de escravidão, que supostamente seria "livre". O fato é que não basta optarmos pela defesa do direito à vida se continuamos a desprezar os defeitos no alicerce sobre o qual foi edificado o capitalismo moderno, acúmulo de capital (para satisfazer desejos) e trabalho (supostamente) livre (para subsidiar as necessidades básicas)! Se nos mantivermos nesse dilema entre trabalho e vida como se fossem distintos, estaremos emprestando caráter reducionista à algo que poderia ser pensado - e enxergado - de maneira ampliada. Trabalho e saúde são frutos da mesma árvore, podem ser pensados como meio para que a humanidade alcance o verdadeiro fim para a qual fora criada: ser livre para poder ser fraterna, ou desenvolver a capacidade de ser fraterna para poder se reconhecer livre. É certo que para superarmos essas contradições, que aqui se perfazem entre carreatas, silêncio, marchas surpresas, churrasquinho no planalto, ponderação e extravagância, faz-se necessário um olhar ampliado que ressignifique os sentidos do trabalho, abrindo possibilidade para que aprendamos que satisfação de necessidades básicas não podem ser confundidas com os desejos de uma fração cada vez menor da humanidade. E pra isso é preciso construir uma nova base de ensino que permita não apenas dotar as pessoas das capacidades de fazer contas, ler e escrever um texto com coerência. Urge que as pessoas possam aprender a perceber aquilo que um número reduzido de outras pessoas não desejem que elas saibam: como o mundo está assentado na busca desenfreada e reiterada pela satisfação de necessidades supérfluas, e como os mecanismos atuam para distrair a grande maioria sobre quais são as reais necessidades que a humanidade precisa conquistar para não se ver reduzida. Esse aprendizado, que permite ver e perceber para além do que fomos adestrados, só se fará a partir de uma nova escola, onde grades curriculares darão espaço à uma educação verdadeiramente livre. Só assim poderemos, como Drumond, ver poesia naquilo que parecia ser apenas uma pedra! Que busquemos novos olhos, que desenvolvamos a inteligência perceptiva e amorosa para, com ela, nos guiarmos numa vontade consciente e humana, pois como escreveu Alberto Caeiro "não basta abrir a janela para ver os campos e os rios".

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