Mestre em educação e consultora educacional, a professora Carla Jarlicht defende que o isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 seja aproveitado para a construção de memórias afetivas entre pais e filhos. E que ler e brincar são caminhos essenciais para essa conexão.
Para ela, é importante falar de fadas, príncipes e heróis. Assim como os adultos, as crianças precisam da fantasia para dar conta da realidade.
Carla ministra nesta terça-feira (19), das 17h às 18h30, o curso online "Ler e Brincar: como Potencializar a Ludicidade nas Crianças" pela Casa do Saber Rio (rj.casadosaber.com.br).
Confira um resumo de orientações que Carla tem para passar a pais e filhos.
Ela fala sobre internet, livros de papel e de personagens fantásticos.
A internet faz parte da rotina das crianças, até mesmo das menores. O que há de positivo e negativo nessa ferramenta?
Carla: A internet faz parte da vida de todos. E esse é um caminho sem volta. Por isso, é preciso estabelecer uma rotina balanceada, gerindo melhor esse tempo das crianças em frente às telas. O recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria é que crianças até dois anos de idade, por exemplo, não sejam expostas às telas em geral (TV, tablets, celulares) e que as maiores tenham um tempo de até 2 horas em frente às mesmas. Isso porque a exposição excessiva é nociva para o corpo e para a mente.
Internet é como uma rua extremamente movimentada e imprevisível. Da mesma forma que não convém deixar uma criança andar desacompanhada na rua, não convém deixá-la sozinha na internet ou diante de qualquer outra mídia. Menos ainda por tempo indeterminado.
O contato com livros de papel ainda tem relevância para as crianças?
Carla: Desde que a tecnologia foi ocupando cada vez mais espaço em nossas vidas, passamos a questionar a serventia de tudo que veio antes dela. Os livros fizeram parte desse questionamento. Mas o tempo foi nos mostrando que sim, há ainda espaço para o livro, que segue firme e forte, sobretudo na vida das crianças. Isso porque elas precisam dessa experiência, pois conhecem o mundo assim, sentindo, comendo pelas beiradas (ou se lambuzando mesmo!), através do toque, do cheiro. E, a cada virada de página, vão adentrando na história a partir daquele suporte. Hoje existem também livros-objeto que proporcionam ainda outro tipo de experiência, surpreendendo o leitor com seus projetos gráficos, ampliando a leitura. Há uma autora tcheca, Kveta Pacovska, que diz que o livro ilustrado é a primeira galeria de artes que uma criança visita. E é bem isso.
Entre brincar e ler com os filhos, o que os pais devem priorizar?
Carla: Não é preciso escolher. Eu diria os dois. E diria mais: o que os pais devem priorizar é o tempo de estar verdadeiramente com os filhos. Inteiros, interessados.Estar conectado com o filho/a é ter a chance de conhecê-lo melhor, de partilhar experiências e construir memórias afetivas. E nesse caminho, o brincar e a leitura são atividades extremamente convidativas.
Qual a importância de falar de fadas, princesas e heróis neste momento tão cinza da humanidade?
Carla: Falar de princesas, fadas, príncipes e heróis é sempre muito importante. Tão importante quanto falar das bruxas, monstros e dragões. Isso sempre e, ainda mais, em momentos como o atual.
Explico: a literatura para crianças nos brinda com todo tipo de narrativas e quanto mais pudermos explorar essa pluralidade, melhor. Geralmente as boas narrativas trazem conteúdos humanos complexos de uma maneira delicada, poética, inusitada. Algumas vezes de forma divertida, outras de forma absurda, triste, assustadora e até repugnante.
O caso é que precisamos dessas histórias porque são elas que provocam questionamentos acerca dos nossos conflitos ao articularmos a narrativa com nossas próprias emoções. A leitura ecoa dentro da gente. E gente, de todo tamanho, precisa da fantasia para dar conta da realidade.