Assim como foi no Dia das Mães, os bauruenses irão comemorar o Dia do Abraço, celebrado nesta sexta-feira (22), sem abraçar familiares e amigos queridos. Nesta quarta-feira (20), os moradores da cidade completam exatos dois meses de quarentena, sem poder abraçar, visitar e estar perto de quem ama.
O distanciamento social é uma recomendação das autoridades sanitárias para controlar a velocidade da disseminação do novo coronavírus no País. Em 20 de março, tanto o governo municipal quanto o estadual publicaram decretos que restringiram as atividades comerciais, como forma de estimular a permanência das pessoas em casa.
De lá para cá, uma série de conflitos, de ordem emocional, econômica e de saúde, se instaurou. Para muitos, a saudade apertou, o dinheiro faltou, o emprego se foi. A falta entendimento entre os governos federal, estadual e municipal ficou bastante evidenciada.
Os conflitos dentro de casa, com mães e pais tendo de estabelecer uma nova rotina doméstica, também aumentaram. A violência doméstica se intensificou. Ajudar os filhos a estudarem em casa se tornou um desafio difícil de administrar.
Em Bauru, 221 pessoas já receberam o diagnóstico de Covid-19. Doze famílias enterraram entes queridos acometidos pela doença. Nesta semana, quatro servidores da rede municipal de saúde e 15 do Hospital Estadual estão afastados preventivamente por apresentarem sintomas respiratórios.
IMPACTOS
As transformações na rotina são uma dificuldade sentida, em menor ou maior grau, por todos os moradores. Mas o enfrentamento deste momento ocorre de maneira diferente para cada pessoa, dependendo da realidade que ela vivencia, conforme analisa o psicanalista, André Luiz Gellis, professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp de Bauru.
"O impacto varia muito, de acordo com a situação social, econômica, cultural, escolar. Outro aspecto é o preparo psicológico para lidar com uma situação de incerteza e vulnerabilidade, que traz para todos a perspectiva de rever o sentimento de onipotência que é marca do ser humano. A vivência não é a mesma para todos. Por consequência, as defesas mobilizadas contra o medo ou angústia também vão variar", detalha ele, que é supervisor do Centro de Psicologia Aplicada da FC.
Mesmo temerosas, muitas pessoas desamparadas financeiramente não têm outra escolha a não ser ir às ruas para buscar sua própria sobrevivência. Já outra parte segue a quarentena de modo mais rígido, com saídas de casa somente em casos de extrema necessidade, mesmo que o desejo de manter contato físico com outras pessoas seja permanente.
Outras, por sua vez, passaram a ignorar o grau de perigo de contágio, afrouxaram o isolamento e até começaram a promover confraternizações com grande número de pessoas aos finais de semana. “De algum modo, a gente percebe o crescimento da intolerância, a diminuição da consideração pelo outro. Talvez este seja um indicativo de dificuldade das pessoas de passar por um momento que exige disciplina, porque envolve uma alteração brutal na rotina das pessoas por tempo prolongado”, avalia.
O nível recomendado no Estado de São Paulo, de 55%, foi alcançado em Bauru somente em 29 de março e 19 de abril. Nesta segunda-feira (18), o patamar foi de 44%.