Nacional

'Ainda não entenderam a gravidade', diz médica que ficou em dupla quarentena

FolhaPress
| Tempo de leitura: 3 min

Brasília - O coronavírus já deixou a médica infectologista Ho Yeh Li, 46 anos, duas vezes em isolamento completo. A primeira, em Anápolis (GO), após coordenar, a convite do Ministério da Saúde, a equipe de profissionais de saúde na primeira operação para trazer brasileiros que estavam em Wuhan, na China. A segunda, em São Paulo, quando descobriu que estava com a doença dias após iniciar o atendimento de casos à frente da UTI de infectologia do Hospital das Clínicas da USP.

Em entrevista, Ho conta como foi o processo de recuperação e os desafios na assistência. Em casa, esteve por 16 dias - parte deles na cama por causa de febre. Para ela, as pessoas ainda não entenderam a gravidade da doença. "Estamos toda semana aumentando os leitos de UTI. Mas isso tem limite", diz ela, que faz um apelo por medidas de prevenção. "Se não colaborarem, nós, os profissionais de saúde, estamos enxugando gelo."

A senhora foi uma das primeiras médicas a ficar em isolamento por risco do coronavírus por causa da missão de Wuhan, quando o país ainda não tinha casos confirmados. O que mudou agora?

Ho Yeh Li - Naquela época, ainda tínhamos dúvida de quando e como chegaria ao Brasil. Havia dúvidas sobre o impacto de diferenças climáticas na capacidade de expansão da doença. Quando apareceram casos na Itália, foi quando tivemos a certeza de que chegaria, porque recebemos mais turistas europeus do que da Ásia.

Já achava que poderia pegar a doença?

Ho Yeh Li - Já sabíamos que, por estarmos na linha de frente, e sem vacina eficaz, em algum momento poderíamos ser infectados. Por isso tivemos duma preocupação gigante em relação à segurança dos profissionais. Não imaginei que fosse ficar doente logo no começo. Mas várias pessoas do comitê de crise ficaram doentes e, lá no início, fazíamos reuniões sem máscara [na época, o uso não era obrigatório].

Em fevereiro, enquanto muitos ainda tentavam minimizar os impactos, a senhora foi uma das especialistas a dizer que não havia sistema de saúde que aguentasse se o coronavírus se espalhasse tanto. Como vê a situação hoje?

Ho Yeh Li - O Ministério da Saúde começou o preparo em janeiro. Sentimos que os Estados que entenderam cedo que a doença chegaria e começaram a ter algum tipo de plano para assistência são os que estão conseguindo, de alguma forma, atender os pacientes. Estados que acharam que a doença não ia chegar estão sofrendo agora a consequência de um número grande de casos. Ao mesmo tempo, vem a preocupação: a sociedade ainda não entendeu a gravidade da doença. Estamos toda semana aumentando os leitos de UTI. Mas isso tem limite, e em algum momento ele vai chegar, seja por capacidade de estrutura, seja de recursos humanos.

Quais seriam essas medidas de prevenção?

Ho Yeh Li - Ainda vemos pessoas na rua sem máscara. Ainda não entenderam que é uma doença de transmissão respiratória e tem de usar. Outros usam luvas, mas acham que estão seguros e coçam o rosto. O isolamento é outra medida. A China conseguiu controlar a doença com 50 dias de quarentena em Wuhan porque todo mundo aderiu.

A senhora fala que o sistema deve se esgotar. Em quanto tempo isso deve ocorrer?

Ho Yeh Li - O Brasil é um país de dimensões continentais, e não dá para generalizar a previsão. Em São Paulo, por exemplo, é difícil prever quando seria o pico, o que depende do comportamento das pessoas. Mas, se a adesão das pessoas em relação ao distanciamento social e a medidas de prevenção continuar abaixo de 50%, em breve vamos esgotar a capacidade. Se as pessoas não colaborarem, nós, os profissionais de saúde, estamos enxugando gelo.

Como viu a decisão do Ministério da Saúde de liberar a cloroquina para casos leves?

Ho Yeh Li - Apenas nesta semana, saíram dois artigos em revistas importantíssimas, a British Medical Journal e a Lancet, sobre a questão de cloroquina. Em ambos, foi demonstrado que não há benefício, inclusive para formas leves e moderadas da doença. Na minha opinião, tinha de encerrar esse assunto e partir para outra droga. Estamos gastando tempo demais com isso e colocando a população em risco.

 

Comentários

Comentários