A pandemia de 'indignação' que tomou conta de boa parte, se não da maioria, das pessoas nestes tempos pós-modernos é, ao contrário de parecer um avanço crítico, um sintoma de como estamos sem rumos, desnorteados e, acima de tudo, sem referências importantes, como já tivemos um dia. Pelo menos a 'indignação' a que vou me referir aqui, aquela sem consequência e, muitas vezes, irresponsável.
Revendo o ótimo programa Café Filosófico, na TV Cultura, no último final de semana, com o psicanalista brasileiro Jorge Forbes e com o filósofo francês Luc Ferry, este nos brindou com uma explicação brilhante sobre essa tal 'indignação' que virou mania na espécie humana, manifestada notadamente nas redes sociais.
Ferry diz mais ou menos isso: estamos indignados com tudo e com todos, menos conosco mesmo (esse é ponto!). Só olhamos o que há lá fora, as outras pessoas, os fatos que nos cercam. Blasfemamos e maldizemos a todo instante o que não é espelho, mas não fazemos o principal, ou seja, não nos indignamos com nós mesmos, com as nossas imperfeições, limitações e subjetividades, e acusamos o outro.
Já deu para entender por que usei aspas na palavra 'indignação', certo? Não estamos sendo dignos de exercitar o sentido nobre desta palavra, com racionalidade, bom senso e equilíbrio. "Sentimento de cólera ou de desprezo experimentado diante de indignidade, injustiça, afronta; repulsa, revolta". Este verbete explica a palavra indignação em seu uso mais nobre e correto.
Mas como estamos nos indignando, hoje?
Apenas para extravasar, indiscriminadamente, o sentimento de cólera e desprezo por tudo e todos os que não pensam e não agem conforme nosso ideário. Isso é um dos sintomas do medo e da insegurança, filhos da pouca reflexão que assola os 'indignados com tudo'.
Como andamos angustiados com a política, com a economia, com as relações sociais, apenas extravasamos ódio nas menores e nas maiores situações, sem parcimônia, sem empatia, sem ao menos um pouco de paciência para entender o outro. Uma histeria coletiva. Uma falsa indignação! Há não muito tempo, tínhamos referências e, torcidas à parte, eram bússolas para a busca do entendimento da vida, de sentido para as coisas, da luta contra nossos temores e fobias. Como abordaram Forbes e Ferry, morríamos por uma grande causa, pela defesa do Estado, pelos problemas coletivos e públicos. E hoje o que amamos são, no máximo, nossos familiares. Não amamos mais o próximo.
Sou de uma geração que tinha referências, até líderes políticos encontrávamos para nos inspirar. E não eram 'messias' ou 'salvadores da pátria', representavam ideais e não a si próprios. E quando havia recaídas para o culto à personalidade e ao fanatismo, havia o que se chamava 'autocrítica'. Minha geração (cinquentões) se cobrava muito por isso. Era a indignação conosco mesmo antes de tudo. Só depois com os outros. Cometemos muitos erros, mas adorávamos submergir no mundo das ideias para tentar entender os fenômenos, dialeticamente.
Voltando a Ferry: "Perdemos contato com o sagrado!" Não somente o sagrado da religião, mas o sagrado que nos fazia ter mais respeito à humanidade, à natureza, às instituições e a líderes. Estamos incapacitados de olhar aos homens públicos, por exemplo e, antes de apenas atacar, atacar e só atacar, refletir sobre o dilema que enfrentam, dia e noite, no trato desta crise sanitária mortal e os desarranjos que ela provoca na saúde e na economia. E, assim, sequer cogitamos uma breve trégua e a união de nossas forças naquilo que é comum a todos.
Em sociedades com processo civilizatório mais adiantado, há mais calma, mais serenidade, mais discernimento, firmeza de princípios, não menos criticidade e pactos em momentos graves como este, algo que nem cogitamos por aqui. A absoluta falta de capacidade reflexiva e de autoanálise enraivece e turva, talvez convenientemente, a visão de boquirrotos indignados com tudo e nada ao mesmo tempo. Lamentável!