Tribuna do Leitor

Manicômios nunca mais! A Atenção Psicossocial e a Territorialização

Osvaldo Gradella Júnior
| Tempo de leitura: 3 min

Para além de uma mudança somente na forma de cuidado com as pessoas em sofrimento mental e psíquico, ou seja, acabar com o hospital psiquiátrico e substituir por uma rede de atenção aberta e comunitária, essa forma nasce da compreensão do fenômeno do sofrimento mental e psíquico enquanto um processo social, construído nas relações alienadas e violentas impostas pelo modo de produção capitalista.

O paradigma que surge na contraposição ao modelo hospitalocêntrico é a Atenção Psicossocial. Esse paradigma considera como principal a viabilização e a criação e expansão concretas de uma rede de atenção e cuidados baseada em um território e pautada nos princípios de integralidade e participação popular. Para isso, a organização dos municípios em territórios vai possibilitar a articulação dos serviços de saúde, de assistência social, de educação, cultural e de possibilidades locais de inserção no trabalho e formação de cooperativas, articuladas com os diversos grupos comunitários existentes no território. Possibilita a elaboração de um perfil epidemiológico dos problemas de sofrimento mental e psíquico, o acompanhamento do desenvolvimento dos sujeitos e a elaboração de estratégias de intervenção coletivas nesses territórios para além das questões de saúde mental. Dessa forma, articula-se todos os equipamentos sociais existentes no território e otimiza-se o trabalho desenvolvido e a superação dos diagnósticos rápidos e superficiais também em função da falta de equipes completas nos serviços. Por exemplo: neste momento de pandemia e isolamento social poderíamos articular alguma forma de suporte coletivo que amenizasse o sofrimento.

Assim os usuários são mantidos e reinseridos nas suas comunidades de origem e perto de seus familiares que, por sua vez, não ficam isolados e sobrecarregados em sua função de cuidador e provedor. Mais que isso, pressupõe uma compreensão coletiva do sofrimento psíquico e mental enquanto um processo que impõe dificuldades maiores para inserção no mundo e que esses sujeitos necessitam de um maior suporte e acolhimento para viverem suas vidas e exercerem sua autonomia e independência enquanto cidadãos.

Em Trieste, Itália, berço da experiência mais exitosa da Psiquiatria Italiana, o termo utilizado para denominá-los é sujeitos em desvantagem, ou seja, a sociedade capitalista é organizada na base da competição porém sem garantir a igualdade das condições. Em uma sociedade organizada dessa forma, os sujeitos em sofrimento mental e psíquico acumulam mais essa desvantagem. Essa lógica se completa com os diversos processos de exclusão necessários para garantir a existência de alguns poucos que se locupletam em função da apropriação do trabalho alheio.

Outro princípio do paradigma da atenção psicossocial é a formação dos profissionais que atuam na saúde, procurando romper com suas práticas individualizantes e específicas. Ainda é hegemônico na área de saúde mental o poder médico centrado e medicalizador, com um profissional que não é preparado para o trabalho e atenção coletiva, tais como as reuniões de equipe, a orientação dos usuários para os trabalhos grupais e oficinas, ao acompanhamento e revisão da medicação inicial, que dificulta a participação do usuário em outras atividades e reinserção na comunidade em função dos efeitos colaterais das medicações psiquiátricas em excesso. Existem exceções pois essas posturas de não compreender as possibilidades de reinserção e de outras formas de viver para esses usuários também permeiam a formação dos outros profissionais de saúde. Essas posturas se mantêm não por uma postura individual do profissional, mas em função do paradigma psiquiátrico hospitalocêntrico medicalizador ainda dominante nas formações na área de saúde.

A formação continuada se torna uma necessidade para aprender e reaprender lidar com as situações do cotidiano dos usuários que sobrevivem em condições precárias e instáveis e pela complexidade das relações sociais envolvidas na implementação do paradigma da Atenção Psicossocial.

Essas mudanças não são fáceis e nem simples de serem implementadas, porém cabe aos gestores, principalmente dos municípios, a intencionalidade de transformar e organizar na perspectiva do paradigma da Atenção Psicossocial, a rede de atenção psicossocial conhecida como RAPS e arregimentar todos aqueles que podem contribuir nesse processo, tal como previsto na criação do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial em 1987.

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