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O 'X' da 'cuestão'

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 1 min

O Brasil de hoje vive um suspense amalucado mais ou menos como há trinta anos. Você deve se lembrar. A diferença é que o irritado da época, no Palácio do Planalto, também xingava, mas não falava "cuestão".

Collor tinha, em seu caminho, o impeachment certo dois anos e meio após chegar ao poder. Acusado de ser beneficiário de tráfico de influência, renunciou. Melancólico desfecho. Voltaria como senador.

Esse processo todo de impeachment foi instaurado na Câmara dos deputados, em 29 de setembro de 1992, por 441 votos (apenas 38 votaram contra). Anos mais tarde, em entrevista a Geneton Moraes Neto, Collor resumiu qual foi seu "erro imperdoável": "O mau relacionamento com o Congresso".

Essa é só uma pequena passagem do livro de Geneton, "Os Segredos dos Presidentes", que Bolsonaro bem poderia espiar nesse momento de grande tensão entre os poderes. É verdade que, a seu modo, ele já está tratando de evitar esse "erro imperdoável". O transcorrer da história provará se foi de forma 100% republicana.

Há outras tantas situações ali na obra que podem ser úteis ao atual chefe do Executivo. Como quando Itamar Franco revela que, já presidente, recebeu sugestão de políticos próximos para fechar o Congresso - então alvo de denúncias de corrupção na comissão de orçamento.

"Falei: 'Não! Não! Eu quebraria tudo aquilo que aprendi desde jovem. Comigo não contem. Vamos resolver a crise no Congresso. O Congresso é fundamental no processo democrático", considerou Itamar. Não que alguém, em 2020, esteja pensando em algo do tipo. Mas nunca é demais pontuar a relevância do Legislativo no regime vigente.

Enfim, caso Bolsonaro tenha interesse, empresto o livro. Só tem um detalhe: Geneton, falecido em 2016, trabalhou no grupo Globo. Se disso o presidente não fizer "cuestão"...

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