"Ao meu pai - Durante uma crise de minha juventude, ele me ensinou a sabedoria da escolha: tentar e falhar é, pelo menos, aprender; não chegar a tentar é sofrer a perda incalculável do que poderia ser conseguido." Essa foi a dedicatória que Chester I. Barnard, executivo e professor da Harvard, dos primeiros tempos da Administração Científica, colocou em seu livro "As Funções do Executivo."
Sérgio Moro foi um dos milhões que confiaram em Bolsonaro e foram enganados. Depois de 25 anos de uma carreira jurídica brilhante, proferindo sentenças nunca imaginadas, de condenação de poderosos, no país em que a máxima era que para a cadeia só ia ladrão de galinha, ele jogou tudo na esperança de apagar a pecha de país da impunidade. Esperança essa que entusiasmou a sociedade, cansada e estarrecida com a sangria dos cofres públicos, às golfadas de milhões, pela corrupção galopante.
Seu nome ultrapassou as fronteiras internacionais e Bolsonaro, sem escrúpulos, viu nele uma âncora para seu governo, cuja bandeira era o combate à corrupção. Por intermédio de Paulo Guedes os dois se aproximaram e Bolsonaro fez o convite, dizendo que lhe daria carta branca, o que significava dar-lhe todo o apoio no combate à corrupção. Foi uma 'fake new' ao vivo, demonstrada pela conduta do presidente, de total desinteresse pelo combate à corrupção, deixando que seu projeto anticorrupção fosse esvaziado e passando a pressioná-lo por alterações na Polícia Federal porque o filho Flávio Bolsonaro está sendo investigado pela famosa 'rachadinha' na Assembleia do Rio.
A coragem de Moro, de deixar a carreira de juiz, consciente de que não haveria retorno, pondo em risco a segurança de sua família, e a firmeza de propósito de dar ao seu país uma contribuição de maior alcance deram-lhe capacidade de tolerância de descumprimento do prometido pelo presidente, enquanto ainda restava alguma coisa que alimentava a esperança, não de conseguir extirpar a corrupção, mas de reduzi-la ao que fosse possível pela certeza da punição. Mas essa tolerância chegou ao limite quando o presidente violou o seu grito de guerra da campanha procurando aliança com os políticos famosos pelo 'Toma lá, dá cá'.
Não havia mais esperança e ele fez o que devia fazer: pediu exoneração e deu satisfação à sociedade expondo os motivos da decisão. Não fez denúncia, apenas contou os motivos. Se um ou alguns dos fatos podem ser transformados em denúncia é o Ministério Público que decidirá.
Infelizmente sua decisão tem sido mal interpretada o que não é justo, ele teve a dignidade que faltou ao presidente. Ele tentou e não conseguiu, mas não vai carregar o fardo de não ter tentado aquilo que ele e a sociedade desejavam para no Brasil e que teria sido possível em outras circunstâncias.