Mapeamento da trajetória do novo coronavírus em Bauru, elaborado pela Vigilância Epidemiológica, mostra que a doença começou a atingir as regiões periféricas da cidade. A migração do vírus, especialmente para bairros mais pobres, acende alerta na Secretaria Municipal de Saúde. A preocupação é com a possibilidade de o município seguir tendência, já observada na Capital e em outros países, de explosão de casos e óbitos com a chegada da doença nesses locais.
"Se observarmos São Paulo, depois que a doença chegou na periferia, o número de casos e a mortalidade aumentaram muito nos bairros mais carentes. E a gente não sabe, de fato, como esse comportamento se dará em Bauru", afirma Ezequiel Santos, diretor da Vigilância Epidemiológica Municipal. "Será que a situação vai piorar quando a doença chegar aos bairros mais carentes da cidade? Se seguir a tendência de São Paulo, provavelmente sim. Mas vamos ter que esperar pra ver", afirma.
Quando chegou em Bauru, há pouco mais de dois meses, a Covid-19 seguiu o mesmo desenho da circulação do vírus de outros países. "Ela começa em uma região favorecida. Depois, as primeiras curas e óbitos, geralmente de pessoas que são conhecidas na cidade, acontecem. Na sequência, ela migra para a periferia", cita Ezequiel.
Hoje, os casos ativos da doença (pacientes no período de sintomas e transmissão) estão concentrados na região dos bairros Altos da Cidade, Vila Falcão, Vila Independência e Núcleo Geisel. Há também novas confirmações no Bela Vista e na Pousada da Esperança.
A maioria das mortes é da Zona Sul. "Nove ocorreram em unidades particulares e seis na rede pública", detalha Ezequiel.
CIRCULAÇÃO
Em 30 de março deste ano, Bauru contabilizava seu primeiro caso oficial da Covid-19. A confirmação ocorreu dez dias após o início das primeiras restrições decretadas pela prefeitura.
Os primeiros casos no município foram registrados na região dos jardins América e Europa. Em um segundo momento, a doença migrou para as áreas dos Altos da Cidade, Centro, Vila Cardia e Jardim Brasil. Na sequência, as confirmações passaram a surgir no Núcleo Geisel.
Nas últimas duas semanas, a Covid-19 passou a ser contabilizada na região da Vila Independência. "A concentração de casos começou próxima aos condomínios, mas não se espalhou tanto no bairro. Não foi para o Ouro Verde, por exemplo", observa Ezequiel. Novos casos também começaram a surgir em grande quantidade, nos últimos dias, na Vila Falcão.
DESCRENÇA PREOCUPA
Outro fator que pode contribuir para a explosão de casos, segundo o diretor, é a descrença da população em relação à doença. No último mês, a central de dúvidas de Covid-19 do Samu (192, opção 2) diminuiu drasticamente os atendimentos.
"Muita gente desacreditou. Bauru fez algo muito positivo, que foi achatar a curva epidemiológica e evitar mortes, mas é como se isso tivesse se tornado algo negativo, porque as pessoas ficaram esperando que a doença chegasse de uma só vez", considera Ezequiel.
Ainda segundo ele, os discursos políticos controversos, disseminados desde o início da epidemia e minimizando a doença, também colaboram com o cenário. "O que a gente vê, no dia a dia da Saúde, é que, muitas vezes, a pessoa tem uma doença que pode ser grave e espera, tratando com chás e remédios. E, quando ela procura o serviço de Saúde, já é tarde. Diferente do que ocorre com alguém mais orientado e que tem acesso ao sistema de Saúde. Este já procura o serviço assim que sente qualquer sintoma", compara Ezequiel Santos.