Internacional

Caso Floyd: militares criticam Trump


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Washington - Donald Trump foi contrariado. Após ameaçar aumentar com as Forças Armadas a repressão aos protestos contra o racismo e a violência policial nos EUA, o presidente assistiu em quatro dias à escalada de reações surpreendentes que emergiram das ruas ocupadas no país.

Os organizadores dos atos têm ficado menores e mais pacíficos, na tentativa de se consolidarem como um movimento social de escopo mais amplo e perene, e acabaram de ganhar mais um reforço: militares foram a público em gesto raro para endereçar críticas à postura de Trump. Neste sábado (7) os atos completaram doze dias seguidos e ininterruptos. 

O ESTOPIM

Na segunda-feira passada (1), o presidente afirmou que enviaria milhares de militares para as ruas caso prefeitos e governadores não conseguissem conter manifestações que já tomavam centenas de cidades americanas após o assassinato de George Floyd por um policial branco, em Minnesota. 

Em seguida, Trump atravessou a pé a praça Lafayette, em frente à Casa Branca, e posou para foto na fachada da histórica igreja de St. Johns, que havia sido parcialmente vandalizada nos atos um dia antes.

O trajeto do presidente só foi possível porque oficiais reprimiram com bombas de gás lacrimogêneo e cassetete o protesto pacífico que acontecia diante da sede do governo.

Trump queria demonstrar controle e força e fez o percurso acompanhado do secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, e de Mark Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.

A ação gerou críticas de autoridades e religiosos e desencadeou uma reação em série de ao menos sete militares de alta patente. O primeiro foi Mike Mullen. Na terça (2), o almirante aposentado da Marinha publicou um artigo na revista The Atlantic com o título "Não posso manter o silêncio", em que dizia que os cidadãos americanos não são inimigos das Forças Armadas.

No dia seguinte, veio o petardo mais inesperado e poderoso: James Mattis, ex-secretário de Defesa do governo Trump. Em artigo na mesma revista, o general afirmou que o presidente é uma ameaça à Constituição e que tenta deliberadamente dividir o país.

"Donald Trump é o primeiro presidente da minha geração que não tenta unir o povo americano - e nem finge tentar. Em vez disso, ele tenta nos dividir." A declaração de Mattis foi considerada emblemática porque, além de ter o apoio de diversos republicanos, o general linha-dura costumava ser discreto desde que saiu do governo, em 2018, apesar de ter sido pressionado a falar sobre as condutas de Trump.

Mattis disse que a tentativa de militarizar a repressão aos atos foi seu limite e que o que acontece nos EUA hoje é consequência de três anos "sem uma liderança madura" na Casa Branca.  John Kelly, ex-chefe de gabinete de Trump, fez coro a Mattis.

Disse que concordava com as críticas do ex-colega e que teria argumentado contra a ação de segunda, caso ainda estivesse no governo.

Outros três militares, Douglas Lute, Robert Gates e John Allen, ex-comandante da Otan que chefiou as tropas dos EUA no Afeganistão, juntaram-se à indignação pública contra a tentativa do republicano de politizar as Forças Armadas.

Diante da repercussão negativa, o atual secretário de Defesa precisou reorientar sua rota em aceno a seus pares, o que irritou Trump. Esper disse que não queria usar militares para conter os protestos e que isso deveria ser um recurso apenas na pior das situações, o que não é o caso.

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