O secretário municipal de Saúde, Sérgio Henrique Antonio, está no cargo há apenas quatro meses e vem comandando desde então mais de 1.900 profissionais no enfrentamento da pandemia de coronavírus em Bauru. Com 27 anos de atuação na secretaria, como servidor de carreira, o ginecologista afirma que ainda falta mais conscientização das pessoas para evitar a disseminação da doença. Para ele, o ideal é seguir com o distanciamento social, pois não há tratamento eficaz comprovado até o momento.
JC - O senhor assumiu o cargo há quatro meses apenas. Imaginava que enfrentaria um desafio como esse?
Sérgio - Eu já sabia que teria um desafio a ser enfrentado, pois é uma secretaria com muita demanda. Mas a gente não esperava que viesse uma pandemia como essa. Temos uma equipe muito bem montada aqui na secretaria, fizemos alguns ajustes depois de assumir interinamente, em 4 de fevereiro. E, desde 20 de março, estou como secretário efetivo. Pouco depois de começar o trabalho, veio a pandemia e procuramos nos adaptar rapidamente. Tivemos o apoio de alguns colegas, a Associação Paulista de Medicina (APM) nos ajuda bastante. Montamos o Posto de Atendimento ao Covid (PAC), procurando estruturar para esse combate.
JC - Entre os profissionais da secretaria, há muitos casos de coronavírus?
Sérgio - Confirmados, na rede de saúde municipal toda, são cerca de 20 casos. A maioria profissionais da linha de frente.
JC - Esse aumento de casos em Bauru de um mês para cá já era esperado?
Sérgio - O aumento de casos era algo esperado. Ainda não dá para falar que a abertura do comércio interferiu diretamente. Aumentamos a testagem, houve um aumento de circulação, isso aumenta os índices. O que falamos é que não é hora de parar o isolamento. Ainda falta a conscientização das pessoas. Os dados epidemiológicos nos mostram que de 10 a 30 de junho temos a tendência de crescimento maior dos casos, mas não dá para afirmar que é o pico ainda, ou que em julho a situação estará mais controlada. Ainda é tudo muito novo para a ciência, o mundo todo ainda busca soluções.
JC - Bauru está preparada? Os leitos são suficientes?
Sérgio - Dá para afirmar que Bauru está preparada em vários aspectos, mas o que mais preocupa ainda são os leitos. O número de leitos é suficiente ainda porque a maioria dos casos não evoluiu para a forma mais grave, que precisa de internação em UTI, uso de respiradores. A chegada dos novos respiradores ao Hospital Estadual (HE) é importante, mas atende toda a região. Se fosse apenas Bauru, seria uma situação relativamente confortável, mas é para muitos municípios. Se houver um crescimento de casos que precisam de UTI, a situação se complica. Estamos realizando um trabalho com a região também, pois um município interfere no outro. O que estamos tentando com o Estado é a criação de 10 a 20 leitos de UTI no Hospital das Clínicas (HC), que está previsto para abrir inicialmente com leitos clínicos.
JC - E a compra dos leitos privados, vai ocorrer?
Sérgio - Já estamos fazendo o chamamento público, para credenciar os hospitais da rede privada. Caso os leitos públicos cheguem ao limite e não tiver vagas, poderemos usar esses leitos particulares. E tentamos ainda que o Estado instale leitos de UTI no HC. Como a gente sempre diz na medicina, o melhor leito de UTI é o que não é usado, mas está lá para caso de necessidade. Pedimos ao Estado que, após a pandemia, mantenha o HC e os leitos de UTI para atender a todos que mais precisam. A nossa fila de internação para outros problemas continua.
JC - O custo da pandemia já chegou a quanto em Bauru?
Sérgio - Já passou de R$ 13 milhões. Fizemos o PAC, que recebe pacientes com síndrome respiratória, e também a instalação do tomógrafo e mamógrafo, compra de medicamentos, insumos, equipamentos de proteção individual. No começo, tivemos problemas para a compra desses equipamentos, estavam em falta, e quando achava, o preço era fora de realidade. Agora melhorou, estamos conseguindo comprar. Além disso, recebemos muitas doações. Agradeço de coração mesmo a todos que ajudaram, desde uma pequena doação até volumes maiores, são pessoas, empresas, entidades: tudo isso nos ajuda demais.
JC - Em sua vida pessoal, o que mudou com a pandemia?
Sérgio - Não vejo a minha mãe, que tem 94 anos, há três meses. Eu também sou do grupo de risco, por causa de pressão alta e de ser fumante. Procuro tomar todos os cuidados: ao chegar em casa já tomo um banho, também estou sempre lavando as mãos, usando álcool gel. Máscara virou algo obrigatório. E aqui na secretaria, o volume de trabalho tem sido enorme, trabalho 16, 18 horas por dia, inclusive aos finais de semana.
JC - Fora do coronavírus, o que a Secretaria de Saúde tem priorizado?
Sérgio - Como eu disse, pedimos ao Estado para que amplie o número de vagas de internação, pois a fila de espera para várias áreas continua, independente do coronavírus. Na saúde básica, estamos construindo a Unidade Básica de Saúde (UBS) do Nova Esperança e tem a reforma da Unidade de Saúde da Família (USF) da Vila São Paulo. A obra parou, mas esperamos retomar logo e concluir, além de algumas melhorias em outros prédios.