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Alunas 'caçam' Wi-Fi para estudar

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

É no quarto decorado com dezenas de bonecas encontradas pela avó no lixo que Maria Eduarda Trindade do Nascimento, 13 anos, e Ana Laura Trindade Sanches, 12 anos, estudam todos os dias desde que a escola precisou paralisar as aulas em razão da pandemia do novo coronavírus.

Em uma casa simples do Núcleo Fortunato Rocha Lima, organizada e com paredes todas enfeitadas, elas - que são primas, mas vivem como irmãs - levam praticamente o dia todo para conseguir concluir as atividades, já que são muitas as dificuldades enfrentadas. Sem dinheiro para custear um plano de Internet, as meninas precisam, todos os dias, com a ajuda da avó Eliana de Fátima Trindade, 65 anos, percorrer várias ruas do bairro até encontrar um sinal de Wi-Fi disponível, que não seja protegido por senha.

"Já chegamos a ficar uma hora andando, até encontrar o sinal e conseguir tirar print das atividades do dia. É por isso que, quase sempre, a gente fica até à noite para conseguir terminar os exercícios", afirma Ana Laura, que está no sétimo ano do ensino Fundamental e sonha, um dia, se tornar nutricionista.

Já Maria Eduarda, que está no oitavo ano, quer ser veterinária. "Eu peço a Deus todo dia para ter saúde e poder ver esse sonho delas realizado", projeta a avó, que detém a guarda das meninas desde pequenas.

É com o celular comprado por Eliana no início da quarentena que Ana Laura e Maria Eduarda conseguem acessar o material no WhatsApp e no blog da escola estadual de ensino integral Professora Maria Eunice Borges de Miranda Reis, onde estão matriculadas. Segundo Eliana, o aparelho foi adquirido justamente para que as meninas pudessem continuar estudando.

"Estou pagando em dez prestações de R$ 50,00. Foi o melhor que pude dar a elas", conta a avó, que trabalha como catadora de recicláveis. Ela revela que procura buscar o sinal de Wi-Fi em locais diferentes a cada dia, por medo de que algum vizinho ou dono de estabelecimento comercial perceba e reclame da conduta da família.

ESFORÇO

O dia a dia das meninas é intenso. Primeiro, elas assistem às aulas do governo do Estado transmitidas pela TV Cultura. Assim que a aula de Ana Laura acaba, às 10h30, ela sai com a avó em busca de Wi-Fi. Enquanto isso, Maria Eduarda começa a assistir à sua aula na TV e fica sob os cuidados da bisavó Maria de Lourdes Ferreira Trindade, 87 anos.

"Depois que volto com a Ana Laura, saio com a Maria Eduarda. Fico com dó, porque elas demoram muito para conseguir fazer todas as atividades. Mas elas são muito esforçadas, acordam todo o dia às 7h. São uma bênção e não vão desistir de estudar", comenta Eliana.

A rotina de estudos engloba disciplinas como português, matemática, história, geografia, ciências, inglês e artes, além de matérias que fazem parte da grade curricular do ensino integral, como protagonismo juvenil e projeto de vida.

Nas horas livres que restam, principalmente aos finais de semana, as primas gostam de fazer roupas para as bonecas dadas pela avó. As meninas, segundo Eliana, também são excelentes cozinheiras. "A Ana Laura, inclusive, fez e confeitou o bolo do próprio aniversário", diz.

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