"O conceito de tolerância tem uma história própria e dignidade filosófica que se refere à compreensão recíproca entre diferentes" (U. Eco, in A passo de caranguejo).
O tema da tolerância/intolerância, muito discutido atualmente, na medida em que representa a difícil convivência entre os seres humanos, perpassa pela literatura de todos os tempos. Na Divina Comédia, obra-prima da literatura universal, o viajante Dante, um vivo no mundo dos mortos do Inferno, Purgatório e Paraíso, frequentemente interage com as almas que encontra. Ao interagir, posiciona-se, demonstrando maior ou menor tolerância.
No canto V do Inferno, o poeta dá voz a Francesca, comovendo-se com o relato desta vítima de feminicídio, mas no IX deleita-se em ver a alma de Filippo Argenti chafurdar-se na pocilga. Francesca merece compreensão e tolerância; Filippo, porém, que em vida foi arrogante, violento e, portanto, intolerante, não sabe dialogar e não usa a razão, não permitindo sequer o esforço de procurar compreender os motivos que o levaram à violência. Na verdade, Filippo e outras almas no Inferno representam o intolerável.
Dante foi certamente uma das tantas aprofundadas leituras feitas pelo nosso maior escritor: Machado de Assis. Machado cita Dante em muitas das páginas dos romances e contos da maturidade. Em certas passagens dos contos e romances machadianos, encontramos a concepção da necessidade de tolerância, mas também do "intolerável".
A título de exemplo, no capítulo intitulado "O Vergalho", das Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador-protagonista Brás Cubas assiste a um inusitado espetáculo, ao menos para a época em que se passa a trama do romance: Prudêncio, seu ex-escravo, açoita furiosamente outro, acusando-o de bêbado e de fujão. Para se sentir verdadeiramente liberto, ele precisava escravizar outra pessoa, em condição social inferior à sua, não lhe bastando apenas a alforria proporcionada pelo seu ex-dono.
Machado de Assis, analista impecável das chagas sociais brasileiras, no episódio do escravo mostra também a repentina piedade do patriarca Brás Cubas, que gentilmente faz cessar a crueldade, solicitando a Prudêncio que deixe de açoitar o outro. Na verdade, ele se lembra do tratamento desumano que destinava aos seus escravos, na suposta inocência dos seus verdes anos. Brás Cubas sai do episódio com a consciência em paz, apesar da memória da sua infância de patrãozinho desapiedado.
Tolerar, portanto, é compreender. É mais do que nunca necessário compreender e aceitar, procurando conviver com as diferenças. Enfim, começamos com as palavras de Eco e terminaremos citando mais uma vez o grande pensador, filósofo e escritor italiano. Analisando a humilhação que dois pobres camponeses sofrem no romance I Promessi Sposi (Os Noivos), clássico de Alessandro Manzoni, ele afirma: "Os humildes desconfiam da linguagem verbal porque impõe uma sintaxe lógica que a semiose natural elimina, uma vez que não procede por sequências lineares, mas por "quadros", por fulminantes iconologemas (unidades mínimas simbólicas)" (Eco, U. Tra menzogna e ironia).