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Cheios de manias

Neto Del Hoyo
| Tempo de leitura: 2 min

Todo mundo tem suas manias. Da passista da Mocidade à Rainha da Inglaterra, todos têm um ritual a cumprir, seja ele secreto, discreto, escancarado, admitido ou negado.

Premiado fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado também mantém a sua, que vem dos tempos em que tinha de parar com os cliques para trocar o filme da máquina. Descobriu que cantar uma música seria o fio condutor de seu trabalho, para que ele não interrompesse a concentração enquanto pausava, abria a câmera, tirava o filme, colocava outro e retornava.

Hoje em dia, na era das máquinas digitais, mesmo sem precisar trocar os filmes, continua cantando. Foi-se o rolo, ficou o hábito, que não deixa de ser mania. E mania, até cachorro tem. Acha que não? Posso garantir que o meu tira um grão de ração da vasilha e coloca do lado antes de comer todo santo dia. Depois que termina sua porção, come o grão que retirou no começo. É o rito sagrado dele e eu não me arrisco a interferir.

Existe diferença entre manias e o TOC, um transtorno que gera sofrimento e o torna escravo de sua prática. Não é disso que estamos falando. Mania tem mais a ver com superstição, e isso é um patrimônio imaterial do nosso país, um dos assuntos que os brasileiros mais entendem.

Desde cortar o bolo e fazer um pedido até entrar com o pé direito em campo, se tem uma coisa que une vencedores e perdedores é a superstição. De quatro em quatro anos, meu tio repete o mantra que existem três coisas que unem os brasileiros: Copa do Mundo, superstições e Evidências, de preferência na voz de Chitãozinho e Xororó. É o mantra sagrado dele e eu não me arrisco a discordar.

Mesmo sem querer, todo mundo tem a sua mania de estimação. Tempos atrás, pedi para o colega de trabalho passar o sal que estava longe do meu alcance. "Por favor, coloque-o na mesa". Ele franziu a testa, como se não soubesse que passar o sal diretamente para a mão do outro traz energias negativas. "Supersticioso, eu? Não. Apenas não gosto de desafiar o mundo". Expliquei que desafiar as coisas é ver uma escada na calçada, lembrar-se da superstição e, mesmo assim, passar embaixo dela. "Eu? De jeito nenhum. Atravesso a rua. Melhor prevenir."

Tem gente que fala que mania e superstição é coisa de velho. Pode ser. E também não me arrisco a discutir. Só não concordo que envelhecimento seja uma crueldade. Pois foi com o tempo que aprendi a não subestimar a crendice alheia. Só quem tem apego às superstições ou é fiel a seus hábitos que pode dizer se dá ou não certo. No fim das contas, todo mundo tem as suas manias e são elas que o tornam um ser humano comum e colocam na mesma prateleira rainhas, passistas, fotógrafos consagrados e colunistas abusados.

 

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