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A vida vale a pena

Claudia Zogheib
| Tempo de leitura: 2 min

O momento é confuso. Estamos lutando pela preservação de nossas vidas. A quarentena nos impõe sentimentos de agonia, solidão, medo, pânico, tristeza, euforia, enfim, sabemos o que estamos sentindo, embora muitas vezes não consigamos atribuir nomes aos nossos sentimentos. Com esta pandemia, escutamos relatos de mortos diários e parece que ficamos anestesiados, apenas assistimos aos enterros sem despedidas.

Em "Luto e melancolia", Freud nos ajuda a compreender que precisamos reaver o corpo de nossos mortos para abrir representatividade da morte no inconsciente. Quando isso não é possível, a elaboração da morte se desloca para outros territórios, como sentimentos de desamparo, solidão e abandono. No processo de luto, o objeto que se perdeu no mundo exterior torna-se uma presença no espírito de quem sofre a perda. Assim seguimos desamparados. Cria-se um vazio em nós, um buraco escuro que, como parasita, atrai para si pensamentos e afetos, introduz em nós deformações nos caminhos da alma e o desamparo fica instaurado.

Deixar-se envolver pela narrativa do trágico da história, neste momento, alimenta em nós, inevitavelmente, fantasmas que se aproveitam das nossas obscuridades, e por essa razão, não perdem a oportunidade de reaparecer. Ficamos sem respostas para muitas perguntas. Parece que a única alternativa que nos resta é de reinventarmos o processo de luto dentro de nós, dar nome aos nossos sentimentos, atribuir significados, alimentar nossas crenças, reinventar nossas despedidas.

Para além desta questão, somos atingidos por dúvidas e medos desde sempre, e olhar para o momento que vivemos sob o prisma da vida que sempre vale a pena, faz com que criemos formas de viver as dores da perda, interpretar o momento que vivemos. Interpretar no sentido de promover significado, tornar possível a elaboração desse momento, dar sentido psíquico para que aumente em nós o patrimônio sobre nós mesmos.

É difícil lidar com a nossa companhia quando não queremos ouvir o que desejamos de fato. A quarentena não será para sempre, mas a questão da agonia, da solidão, do medo, do pânico, da tristeza, da euforia, continuará um tema humano que não passará, assim como a elaboração do luto que não se processa em pouco tempo. E ao retornamos à nossa rotina, teremos que aprender a viver sem as pessoas que se foram.

Em tempo: este texto foi escrito ao som da música 'O bêbado e o equilibrista', de Aldir Blanc e João Bosco.

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