A Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) sofreu um desfalque de quase R$ 55 milhões por causa de saques realizados por Gasparini Jr. durante 12 anos - de 2007 a 2019, mas os membros do Conselho de Administração e do Conselho de Fiscalização da Cohab afirmaram ontem, em oitiva na Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara, que desconheciam a prática. Além disso, foi revelado que não eram solicitados documentos para detalhar as movimentações financeiras.
Os 5 membros do Conselho de Administração e os 3 do Conselho de Fiscalização foram nomeados por diferentes prefeitos, todos antes do governo atual, como Tidei de Lima, Tuga Angerami e Rodrigo Agostinho, mas foram mantidos no período em que Edison Bastos Gasparini Jr. permaneceu como presidente da Cohab, inclusive no governo de Clodoaldo Gazzetta.
O vereador Edvaldo Minhano (Cidadania), relator da CEI, fez uma série de questionamentos aos conselheiros.
Ele considerou que as atribuições dos conselheiros deveriam ser melhor apresentadas. Participaram ainda das oitivas os vereadores Natalino da Silva (PV), presidente da comissão, Ricardo Cabelo (Republicanos) e Pastor Luiz Barbosa (Republicanos), membros da CEI. O presidente da Câmara, José Roberto Segalla (DEM), também acompanhou.
SEM DOCUMENTOS
Os conselheiros do Conselho de Administração, que tem como presidente Artur Guedes Neto, e membros Claudionor Alves de Souza, José Antônio Queiroz, José Roberto Serra e Orlando Burgo, falaram antes. Depois, os conselheiros fiscais, com o presidente Gilberto Aparecido Paisan e os membros Arthur Luziano Correa de Barros e Eduardo Abrantes Valério.
O Conselho de Administração é deliberativo, mas destacou que as aprovações do balanço de contas anuais seguiam o indicado pelo Conselho de Fiscalização. Já este último colegiado disse que se ateve a fazer análises da situação contábil e a responsabilidade era do contador da companhia. Os membros ainda afirmaram que, por causa disso, não solicitavam documentos sobre operações financeiras pontuais, e portanto não tinham como identificar eventuais situações de fraude. Também lembaram que as contas passavam por auditoria externa, sem identificação de problemas mais graves até então.
COM SURPRESA
Todos afirmaram desconhecer os saques mensais realizados por funcionários, com o dinheiro sendo entregue ao presidente Gasparini Jr. por mais de 12 anos. Alguns ainda comentaram que foram surpreendidos com as informações que vieram a público após a Operação 'João de Barro', do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), ocorrida no final do ano passado e que culminou com a troca de todo o comando da companhia.
Na ocasião, foram encontrados R$ 1,6 milhão em notas de real, 30 mil em notas dólar norte americano e valores menores em notas de euro e libras esterlinas na casa de Gasparini Jr. O dinheiro foi apreendido pelo Gaeco, que apontou evolução desproporcional do patrimônio dele no período em que foi presidente, tendo em vista o salário que recebia. A Cohab já obteve, por liminar, o bloqueio de bens de Gasparini Jr., da mulher e da filha dele, e do ex-diretor financeiro Paulo Sérgio Gobbi. O pedido do bloqueio é de R$ 116,4 milhões, correspondente aos saques de R$ 55 milhões, e mais os juros e a atualização do valor.
Apesar disso, todos os conselheiros afirmaram aos vereadores que não havia indícios de irregularidades, e que os balanços eram aprovados por todos os membros, com o alerta sobre o aumento do passivo da Cohab. As mesmas contas, em vários anos, depois acabaram rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).