Tribuna do Leitor

Questão de escolhas

Roque Roberto Pires de Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

Na cidade interiorana, um pequeno comerciante tinha sua loja de secos e molhados que ele tocava em companhia de um só ajudante geral. Duas filhas, jovens, estudavam em escolas públicas e, segundo os pais, eram lindas e inteligentes. Desfrutavam da chamada classe média em lentíssima ascensão. Um veículo modelo Caravan, seminovo, adquirido em leilão com longo prazo de financiamento imprimia uma beleza ímpar ao estacionamento da casa grande. O tempo passa para todos e assim passou para eles também, culminando com a festa de formatura das filhas, aquelas que, além de lindas, comprovadamente eram inteligentes conforme diplomas entregues. Não demorou muito, rapazes da cidade e de outras cidades passaram a rondar as imediações da loja e adular os pais com objetivos de namoro e promessas de casamento para longa duração. Os pais... bem, os pais do antigamente precisavam conversar sobre tão importante assunto e marcou-se uma data para que cada um dos pretendentes, afirmassem suas pretensões, suas profissões, suas famílias, crenças religiosas, locais para moradia e outros tantos de etc. etc.etc... Pois bem, marcada a primeira reunião, um deles apresentou-se dizendo ser bacharel em Direito feito em um curso EAD e estava aguardando data para o exame da Ordem. Quando o futuro sogro disse-lhe não acreditar muito nesses cursos por telão, o neófito tergiversou, acrescentando discrepar daquela aleivosia. O sogro nada entendeu do palavreado insosso e o pretendente acrescentou estar cursando o Pós/MBA/GV também pelo sistema EAD. Disse haver recebido muitos elogios durante o bacharelado e ostentava uma flâmula por ter sido o orador da turma; seus pais possuíam apartamento na Baixada Santista, local onde pretendia passar a lua de mel caso fosse o desejo da namorada, ou ela mesma escolheria cruzeiro pelas Ilhas Gregas. A futura sogra não participava das conversas, mas, atrás de um biombo ouvia todo discurso do jovem.

Quando o segundo pretendente compareceu, apresentou-se dizendo estar para concluir um curso de Rádio Técnico, um curso por correspondência do Instituto Monitor de São Paulo, nesse curso o futuro sogro acreditou pois já o conhecia de longa data e era mesmo um curso profissionalizante. Disse também que os pais moravam em um sítio onde eram pequenos arrendatários.

Na cidade ele morava sozinho em pequeno cômodo e lá fazia estudos e experiências com rádios à pilha seguindo as orientações do monitor. No futuro pretendia também fazer um curso de eletrônica pelo sistema EAD, mas para isso, iria trabalhar bastante. Sua namorada pretendia casamento simples e sem os auês da mana e a lua de mel seria passada no sítio dos pais. Da mesma forma, a futura sogra ouvia as conversas e esperava falar com o marido sobre os pretendentes. Uma semana após, o casal reuniu-se, conversou, deliberou e chamou as filhas. Foi feito um retrato falado de cada um dos jovens, e as moças, muito felizes, agora, com suas inteligências um tanto embaçadas pela nova situação, confirmaram suas intenções de casamento. Como combinado, a primeira foi com solenidades e clarins na entrada, a segunda aceitou a celebração de uma rápida oração; nada mais foi dito nem perguntado. Como a festa programada era feita em comum acordo entre elas, foi definida a expedição de senhas para a recepção. Quando o convidado esquecia a senha era um problema sério; o impasse era resolvido liberando a catraca.

Após casamento, a banda de música foi dispensada e os jovens seguiram seus destinos. Os pais da noiva retomaram suas atividades da casa e da loja, e a correspondência com as filhas eram através de epístolas, seu linguajar acadêmico não lhe permitia dizer simplesmente cartas. A sogra, muito emocionada com as transformações ocorridas na família, não suportando muito, foi surpreendida por um AVC; levada ao PS pelo Samu teve óbito confirmado pelo médico plantonista.

O viúvo continuou em sua vida de comerciante, com saudades da finada e das filhas distantes, atordoado e com problemas de saúde procurou recursos com uma das filhas. Ela prontamente atendeu o pedido do pai e o alojou no escritório com todo conforto para leitura e distração. Ocorre que logo na primeira noite ficou sabendo que a CPFL havia cortado a luz e que no banheiro não havia água, também cortada pela Sabesp. Reclamou para a filha e ela lhe disse que o marido estava inadimplente, mas iria impetrar embargos na Justiça para reverter a situação. Ele não entendeu o que era tudo isso, agradeceu o acolhimento, despedindo-se e avisando que iria para a casa da outra filha onde, com toda certeza, não teria esses dissabores.

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