Entrevista da semana

Evangelizar: missão até na fome e na guerra

Bruno Freitas
| Tempo de leitura: 5 min

Enquanto os amigos de sua época de infância queriam jogar futebol ou, talvez, nem pensassem no futuro ou em uma carreira, na pequena Forquilhinha, município de 26 mil habitantes em Santa Catarina, o monsenhor Ângelo Ademir Mezzari, pároco em Bauru, já sabia que queria seguir a vida religiosa. A vocação veio cedo, aos 11 anos, e criou raízes naquele garoto entusiasmado em aprender e compartilhar o Evangelho de Cristo. Aos 63 anos, hoje ele coleciona uma rica história missionária, que percorreu vários países de quatro continentes. Vivenciou, inclusive, experiência de guerra e extrema pobreza, em suas passagens por Ruanda, Congo e em campos de refugiados cristãos no Iraque, vítimas do Estado Islâmico.

Na última quarta-feira (8), o monsenhor Ângelo Ademir Mezzari foi nomeado pelo papa Francisco bispo auxiliar na Arquidiocese de São Paulo. O pedido acatado pelo sumo pontífice foi feito pelo cardeal brasileiro Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Mas o monsenhor segue até meados de agosto como pároco da igreja Nossa Senhora das Graças, no Parque Vista Alegre, em Bauru, cidade que o acolheu há três anos. A nova função, passará a exercer a partir do dia 4 de outubro.

Monsenhor Ângelo Ademir Mezzari integra a Congregação dos Rogacionistas do Coração de Jesus, cujos membros professam os votos de castidade, pobreza e obediência, na realização do carisma transmitido pelo fundador, Santo Aníbal Maria Di Francia. Estudioso, se licenciou em filosofia e cursou teologia em São Paulo. Graduou-se também em jornalismo na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Obteve ainda especialização em teologia na Capital. Ele coleciona um vasto currículo com atuação em diversas áreas da igreja e, em Bauru, também é Superior da Comunidade Religiosa Rogacionista local e professor da Escola de Catequese.

Jornal da Cidade - Como escolheu o caminho da igreja tão jovem?

Monsenhor Ângelo Ademir Mezzari - Minha família é bastante católica. Sou o filho mais velho de sete irmãos e senti o chamado para seguir a vida religiosa bem cedo. Ingressei no Seminário Rogacionista, congregação a qual pertenço até hoje, antes dos 12 anos. Na primeira vez, fui acompanhado pelo meu falecido pai, Antônio. Em todo o caminho até a minha ordenação, sempre tive apoio da família.

JC - Como descobriu a vocação?

Monsenhor Ângelo - É um mistério, um chamado. E vamos respondendo ao longo do tempo. O sacerdócio tem os seus desafios e suas dificuldades, mas é um dom, uma graça de Deus.

JC - É o único da família que buscou o sacerdócio?

Monsenhor Ângelo - Sim. Meus seis irmãos constituíram família, todos homens: o Luiz Rogério, Idinei, Jolcemir, Joelcio, Roberto e o Everson. Nossa mãe ainda é viva, a dona Maria Etelvina, a quem eu presenteei com um dos rosários que ganhei do papa Francisco. E tenho ainda 10 sobrinhos e cinco sobrinhos-netos. Família grande, tipicamente italiana.

JC - Em quais os caminhos que a vida religiosa o lançou?

Monsenhor Ângelo - Entre tantas funções, atuei na área da comunicação, assistência com crianças e adolescentes, fui superior geral da minha ordem, fiquei anos em São Paulo e tive experiências marcantes no Exterior. Fiz missões na Argentina, Paraguai, Colômbia, México, EUA, Bolívia, Peru, Angola, Ruanda, Congo, Camarões, Iraque, Jordânia, Filipinas, Indonésia, Vietnã, Coreia do Sul, Papua-Nova Guiné, França, Itália, Espanha, Alemanha, na antiga Checoslováquia, Polônia, Inglaterra e Índia.

JC - Quais as experiências mais o marcaram?

Monsenhor Ângelo - Em Ruanda e no Congo, na África, vi o sofrimento das pessoas de perto, nos campos de refugiados. Lá houve grandes guerras e os conflitos continuam. Uma experiência dolorosa, de violência e de morte. E no Iraque, onde temos padres que são originários de lá, nossa missão naquele país foi destruída pelo exército do Estado Islâmico. Tentei duas vezes entrar no país, para ver a situação deles, mas fui deportado ao pisar pela primeira vez, mesmo tendo o visto. Só pelo fato de ser estrangeiro. Na segunda tentativa, consegui entrar. Presenciei os campos de refugiados. Por lá, eles ainda falam o aramaico. Novamente, muito sofrimento. Viviam em acampamentos parecidos com os campos de concentração. Muito triste. Lá estavam os cristãos que fugiram ou se salvaram da perseguição. Presenciei também muita pobreza na periferia da Capital de São Paulo. Tudo isso marca o coração da gente.

JC - Como foi conhecer o papa Francisco?

Monsenhor Ângelo - Conhecia o padre Jorge Bergoglio, apenas de nome. Mais recentemente, em Roma, já como papa, consegui falar com ele e cumprimentá-lo, no início do seu pontificado. Ele me presenteou com dois rosários. O papa admira muito os brasileiros, é muito simples e humilde. Eu conheci também os papas João Paulo II e Bento 16.

JC - O que o monsenhor tem o hábito de ler, fora a Bíblia?

Monsenhor Ângelo - Gosto muito de literatura, principalmente de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Lya Luft e José Saramago. E um livro que indicaria, que gosto muito, é "Ensaio sobre a Cegueira", do português Saramago.

JC - O monsenhor também é fã de esporte?

Monsenhor Ângelo - Sim, gosto muito de futebol. Sou torcedor de dois times, o Internacional de Porto Alegre, que tem presença marcante e grande torcida em Santa Catarina, e do Criciúma, time tradicional do amarelo, preto e branco.

JC - Como tem lidado com o desafio de evangelizar durante a pandemia?

Monsenhor Ângelo - Uma experiência nova e as redes sociais, de fato, se tornaram uma ferramenta importante para os padres. A quarentena se revelou um tempo de fortalecimento da fé em família, de momentos de adoração eucarística. E dentro das regras sanitárias exigidas, buscamos estar próximos dos fiéis. Os sacerdotes se tornaram grandes orientadores por videochamada, para fortalecimento da fé, consolo, orientação para o perdão, ajuda e reconciliação.

O e-mail de contato direto com o monsenhor Ângelo é amezzari@rcj.org e o telefone da paróquia é 14 3236-2599.

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