No domingo passado, foi publicado nesta mesma tribuna do leitor um texto de um ex-professor da faculdade em que estudo. Nele, o autor argumenta que o capitalismo não seria o verdadeiro culpado pelas crises e desigualdades de nossos tempos, justificando com um mau-caratismo inerente à espécie humana. Gostaria aqui de revisitar alguns conceitos citados pelo professor e, com isso, apontar como a falha é, na realidade, do próprio sistema capitalista.
No texto, parece haver uma confusão entre sistema econômico e político. Atribuir ao socialismo um caráter autoritário é tão ingênuo quanto atribuir à democracia ao capitalismo, ambos os sistemas produtivos podem suportar diferentes formas de organização política. Contudo, mesmo no mais democrático capitalismo a decisão de o que será produzido sempre cabe ao detentor do capital investido. Isso faz com que a produção muitas vezes não corresponda aos interesses da maioria, pondo em xeque a democracia burguesa presente no capitalismo.
Outro equívoco do professor no texto no conceito de luta de classes, tida por ele como algo do passado, está mais acirrada que nunca. No capitalismo a sociedade está dividida em duas classes: a dos que trabalham, produzem, geram toda e qualquer riqueza, que vendem sua força de trabalho, portanto o proletariado, e a dos que detêm os meios de produção, ou seja, são donos das fábricas e máquinas, os burgueses. Os interesses dessas classes não poderiam ser mais distintos.
Enquanto a primeira procura maior salários, melhores condições de vida e de trabalho, a segunda busca, a qualquer custo, aumentar mais os lucros e acumular fortunas. Esses interesses conflitantes geram um perpétuo embate, ou seja: a luta de classes. A presença de diversificações faz parecer de que essa divisão é mesmo obsoleta. Mas uma análise permite concluir que os pequenos burgueses (donos de restaurantes, comércios locais, etc) se encaixam na dualidade de classes, estando mais próximos do proletariado só que dos bilionários donos de grandes marcas.
Seis pessoas em nosso país tinham em 2017 a mesma riqueza que 100 milhões de pessoas, metade da população brasileira. No mundo 5% das pessoas mais ricas têm o mesmo que as outras 95%. É ingênuo pensar que essas duas parcelas da população dividem dos mesmos interesse. Quando um burguês abre abre uma fábrica ele tem apenas um objetivo: agigantar ainda mais seus lucros. Quando um trabalhador é empregado na dita fábrica seu objetivo é outro, a sobrevivência.
Assim, é impossível sugerir que o trabalhador depende do burguês quando, na verdade, é ele que depende da exploração do trabalho para gerar seus bilhões. E toda essa riqueza não é devolvida aos trabalhadores. Ela não alimenta nenhum dos 820 milhões que passam fome nem abriga os mais de 100 milhões de moradores de rua. Sua única função é o acúmulo nas mãos de poucos.
Finalmente, concluo retornando ao ponto principal. Por mais que sejamos todos seres imperfeitos, os defeitos da nossa sociedade não são um produto de falhas individuais, mas de um sistema econômico construído para gerar grandes desigualdades em benefício de poucos.