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As vacas magras do Faraó

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

O faraó de 'Patropi', que gostava muito de pescar, uma noite teve um sonho que o deixou muito intrigado: estava pescando no Pantanal, quando sua atenção foi despertada por uma boiada atravessando o rio em busca de pastagem em terra enxuta. Era um espetáculo bonito ver as vacas nadando, mas uma coisa estranha aconteceu: do outro lado do rio só saiam esqueletos de vacas. As piranhas devoravam tudo e, de repente a água vermelha de sangue foi inundada por um cardume enorme de peixinhos, coalhando todo o leito do rio. Eram esquisitos, pois em vez de forma de peixe eram redondos, com protuberâncias imitando uma coroa. Não demorou muito para que a água começasse a ter manchas brancas, que foram aumentando até encobrir o rito. Eram peixes, de todo tamanho, que iam morrendo. Acordou assustado e aquela imagem não lhe saía da cabeça.

Ao amanhecer mandou que fossem procurados os melhores adivinhos e conselheiros, que aparecem na TV e redes sociais. Vieram vários, mas nenhum convenceu. Mandou chamar os três príncipes, que após ouvi-lo disseram: sua majestade esqueceu do nosso guru, aquele que fugiu para os 'Estates'. Chamado, o guru veio prontamente, com seu indefectível cachimbo e ao ouvir a narrativa foi dizendo: sua majestade está com sorte, essa é uma premonição divina para o sucesso do seu governo. Vamos ver: a boiada passando o rio e saindo em caveira significa que a sua pecuária terá um enorme desenvolvimento e os frigoríficos terão muito trabalho para atender a grande demanda de carne pela China.

Com referência aos peixinhos esquisitos e à mortandade de peixes o significado é que os seus rios estão altamente poluídos, mas a sua lei de saneamento básico irá despoluí-los com o tratamento dos esgotos. Contudo, sua majestade deverá adquirir grande quantidade de uma substância que vou indicar para completar o tratamento das águas. Ela matará os bichinhos e criará resistência nos peixes que nunca mais serão afetados. Pode ficar tranquilo que o seu governo terá muito sucesso, é só mandar comprar e aplicar a substância indicada. Isso será fácil porque sua majestade é a maior autoridade do país, podendo tudo. E assim o faraó ficou feliz e o guru ganhou o cargo de conselheiro vitalício.

Tranquilizado pelo guru, como sendo a maior autoridade e com sucesso previsto desde que impusesse sua vontade, concentrou-se na preocupação de aplicar a tal de substância, pela qual ficara obsecado e colocou de lado as principais responsabilidades do governo geral. Em conferências informais que passou a fazer com seus admiradores prometeu que daquele dia em diante tudo seria diferente, seu poder teria que ser respeitado por todos os outros poderes.

Essa tranquilidade, entretanto, resultará numa consequência exatamente oposta à afiançada pelo guru, porque ficaram de lado as condições básicas para o desenvolvimento de qualquer nação: a educação e a saúde, cujos ministérios foram largados à matroca. Todas as nações hoje consideradas como desenvolvidas, assim se tornaram porque colocaram a educação e a saúde como necessidades humanas básicas. E o 'Patropi', que teve a sua primeira escola de Ensino Elementar criada ainda no começo de sua independência (1827), inicia mais uma das interrupções no seu desenvolvimento. Adeus Inteligência Artificial e Indústria 4.0.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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