Articulistas

O miolo de pão e o zíper

Marcondes Serotini
| Tempo de leitura: 3 min

Que diferença encontrei quando me vi frente a frente com o trivial pãozinho francês! Ao me rever criança em frente ao mesmo pão, o que eu jamais faria era remover o tão desejado miolo. E foi que fiz, inadvertidamente, para espanto da plateia da minha recordação. Ficar adulto tem o significado terrível de se preocupar com os malefícios que a comida nos faz. E inúmeros são os exemplos dessa "consciência patológica". Até fruta hoje está sendo julgada e condenada ao cadafalso do terror nutrólogo. Como disse Francis Hime em Pau Brasil: ora minha cunhã, uma maçã é uma maçã é uma maçã é uma maçã. A vida era assim, mais simples e objetiva, com as informações nos chegando na hora certa e conforme a necessidade.

Eu me lembro como se fosse hoje do meu fascínio diante do miolo de pão. Quanto mais mole o pão, mais robusto e fornido era o seu miolo. Que delícia encher de margarina ou manteiga. Mastigar era o melhor, porque não havia resistência nem a crocância agressiva da casca. O miolo era a melhor comida do lanche ou do café da manhã. Ele representava a vitória, o sabor, o amor, a vida.

Quando olhei pra um pão fresquinho ontem à tarde, por sobre a mesa da minha copa, me peguei tirando o miolo pra fazer um sanduíche, iguaria a qual também me rendo e venero desde sempre. Ao fazer aquele lanche "sem juízo (miolo)", percebi que me tornei escravo e vítima das maldições a que somos submetidos todo dia. Quando, em sã consciência, eu no auge da sabedoria dos meus 10 anos idade, me permitiria tal heresia? Sem falar na magia que o tal do "sanduíche" também representou em toda a minha vida. Até hoje, uma alegria incontrolável me invade ao montar um lanche. Coloco tudo ali no meio: até de azeitona eu já fiz. Contanto que tenha fartura de maionese, tá valendo. Deixa pra outra oportunidade essa história. Ao remover o miolo ontem, envelheci.

Da mesma maneira, o manejo de um prosaico zíper muda, dependendo da idade. Quando criança, ele representava uma ameaça constante ao meu pipi. Era o mesmo que desativar uma bomba do inimigo. Porque quem nunca prendeu o seu pipi no zíper, não sabe o sofrimento e o trauma que isso causa na alma e na personalidade de uma pessoa do sexo masculino. Por sermos crianças, é natural o ser e viver desatento. Muitas atividades, vontades e hormônios fazem uma criança ser o lar da falta de responsabilidade, que é inerente a quem está em formação. Na hora de fechar o zíper da bermuda ou da pequena calça, todos os alarmes deveriam tocar, luzes acenderem e avisos se fazerem presentes. Essa hora - abrir ou fechar o zíper - é a mais importante do dia. E, distraído, aquele fecho-écler, dotado de toda a maldade existente na face da Terra, belisca e prende a pele do bilauzinho distraído. O pior de tudo é que tem de chamar a mãe pra desfazer aquela tragédia doméstica. É constrangedor demais. Se você estiver fora de casa ou longe da mãe, o cataclisma vexatório dolorido está armado.

E, hoje em dia, é impossível acontecer isso porque crescemos. Sabemos da dor e da importância do nosso "possuído" aqui embaixo, que qualquer distração passa longe de ser causadora de se deixar pinçar por um zíper mal intencionado. Existem outros casos, fartos que somos de mudanças com a adultice. Tem a bicicleta com suas novas utilidades, os amigos que somem e as meninas que inevitavelmente se tornam mulheres, com muito mais complicações e sem manual de instruções, por exemplo.

Mas estes dois casos me mostraram mudanças figadais. Mais em mim que neles, que continuam sendo miolo de pão e zíper.

O autor é ortodontista, jornalista e membro da Academia Bauruense de Letras.

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