Articulistas

Guardado no peito

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Gosto daquela história de que o pouco se conta nos dedos. E nos dedos contei os poucos amigos que tive vida afora. Muitos foram meus amigos sem nunca terem sido. Eu os chamava assim, deles até gostei, saudades deixaram, mas, confesso, nunca estiveram na conta dos meus dedos. A palavra amigo tem na sua raiz o verbo "amar", coisa pra se guardar dentro peito, chaveado sete vezes, exatamente como diz a canção.

Por mais que tentemos, nunca diremos o que um amigo é. Antes de tudo, é uma pessoa amada. Não me perguntem por quê. Não saberia responder. Amar é coisa de sentir e não de explicar. Ainda assim, eu diria que, em cada amigo, amei uma particularidade. De um, a timidez expressiva que o fazia falar pouco, mas dizer tanto. De outro, os olhos afetivos e a voz mansa que enternece e acalma. E o que dizer do meu amigo pensador com quem tenho tido conversas longas e fiadamente gostosas?

Outro dia conversei com um que havia dez anos não encontrava. Morando longe, pouco podemos nos ver. Quando nos encontramos, contudo, sentimos que a nossa amizade continua tão inteira quanto sempre foi. Com outro, eu só converso em pensamento. A vida decidiu assim, sei que nunca mais o verei, mas ele continua comigo.

Quando um amigo chega, tudo muda. Muito bom saber que ele está ali e conosco ficará, certeza de alegria e acolhimento. Mesmo que fique calado, a presença dele bastará. Amigo não precisa falar. Se o silêncio pesar entre duas pessoas, obrigando-as a buscar frases quaisquer para preencher o incômodo vazio, com certeza ali não estarão dois amigos.

Tanto um amigo se preocupa com o outro, que prefere ouvir a falar. Um atropela o outro na pressa de saber como está. Tão necessário o amigo é, que o poeta Rubem Alves falou da sua ausência: "A beleza da poesia, da música, da natureza, as delicias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las." Bem assim, quando a vida nos presenteia com algo especial, a primeira coisa que queremos é o amigo ao nosso lado.

Estranha forma de união é a verdadeira amizade. Eu ousaria dizer que a gente se "casa" com o amigo. E esse enlace acontece sem que saibamos quando, também sem dizermos única palavra, um pacto silencioso prometendo duradoura fidelidade. É como se houvesse um contrato nunca redigido, nunca discutido, nunca assinado, mas com cláusula única dizendo: estaremos juntos sempre, aconteça o que acontecer. A vida, sempre madrasta, não concorda com esse pacto e acha graça dessa ingenuidade que promete o que não pode. Se o certo da vida é o incerto, como predizer o amanhã? Então, a amizade verdadeira também pode morrer? Não sei. Talvez essa amizade não estivesse tão enraizada quanto deveria. Ou, quem sabe, mudando o foco, poderíamos pensar melhor. Digamos que foram sim amigos infinitamente verdadeiros, mas isso só enquanto durou. Obrigado, Vinícius, por falar assim infinitamente da chama mortal.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

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