Muitos estão perdendo parentes, amigos, conhecidos, vizinhos, todos estamos diante dos números de desconhecidos. Ao falarmos e chorarmos junto, mas distante dos mortos, explicitamos nossa condição de seres comuns, e revelamos uma condição natural de vida, uma fragilidade ... a vida como seres humanos. Diante de tantas despedidas, o temor fica em meio a nós, e lamentar a morte parece ser insuficiente para darmos conta do excesso de números diários. Uma impossibilidade de luto assola o nosso país.
Estamos no país que é inverno, inverno no tempo e na alma. Nos sentimos desamparados. Fato que pode anunciar uma tragédia... ou pode anunciar uma preciosa elaboração dentro de nós se pudermos olhar para aquilo que estamos vivenciando... e fizermos algo! "É brincando que se diz a verdade", é brincando que manifestamos o assombro que existe dentro de nós. É como a criança manifesta seus temores, é como nos sentimos frente ao que vivemos. Nossa criança está assim, faz tempo!
Nossa capacidade para pensar pode estar fragilizada pelo excesso de acontecimentos, mas nada escapa aos fatos e a repercussão civilizatória dentro e fora de nós. Estamos escassos de referenciais, mas tomara que ainda não percamos a capacidade para pensar e articular lutos possíveis diante dos cenários que estamos vivendo. Não deveria ser diferente! O tempo atualiza os fatos e por mais que estejamos divididos em contextos sociais, a vida do outro não é menos importante que a nossa, e neste sentido, o bem estar do outro determina o nosso próprio bem estar. Com a presença do coronavírus se proteger não é suficiente. Precisamos que o outro esteja protegido, seja visto, para estarmos amparados e seguros.
Isto instala um paradoxo interessante na jornada da vida que deveríamos pretender. Não seria uma contradição, se não estivéssemos tão "acostumados" com os descasos que presenciamos diariamente em nosso país. A dor que pretende unir ainda nos gera impacto, nos deixa muitas vezes paralisados.
Talvez, olhar para o sofrimento atual evidencie aquilo que não fazemos. Portanto, e diante disto, banalizar parece ser a melhor saída para muitos continuarem desatentos aos "fatos". A velha conhecida "negação", a frieza do olhar: eu não olho, eu não vejo, porque ao olhar parece natural fazer algo perante aquilo que é visto. Parece necessário exercitarmos o modo solidário de viver, até por razões de sobrevivência.
Em tempo: este texto foi escrito ao som da música "Meninos eu Vi", de Chico Buarque, cantada por Djavan & Olivia Byngton.