Bruno Sanches é uma figura de honra de Academia Bauruense de Letras. É um dos bauruenses que mais acompanha a literatura de hoje, a música jovem e as coisas da vida como ela é. Provou que é um escritor, agora de papel passado, e em nenhum lugar cabe melhor essa expressão, com a publicação de "O fim e o começo" (Mireveja Editora, Bauru, 2020), um livro de contos. Passa o atestado com mão firme e um sorriso no rosto. "Ridendo castigat mores", fazer rir para castigar os costumes. Nestes tempos cabeludos que vivemos, o riso é mais do que necessário. É preciso rir para não chorar, para não sufocar, nestes tempos sombrios, de depressão, do não a nos oprimir a garganta e o espírito.
O livro do Bruno se parece com um livro de crônicas, leve, com um sorriso na ponta dos lábios. Nenhum demérito quando se fala em crônicas. Conhece o ofício, como o cronista conta uma história que aconteceu ou poderia acontecer no dia-a-dia, distrai o leitor, e educa, leva-o a tomar consciência da realidade que tantas vezes passa despercebida. Assim faz uma crítica de costumes, como quando um Stanislaw Ponte Preta destrinchava o caos da época da Ditadura. Não julga, muito menos condena, apenas aponta: isto aqui é gozado, é uma trave no olho, precisamos enxergar a realidade.
O primeiro conto é "A mala do enxoval", um tema até batido, mas tratado como novidade, levando o leitor a enxergar na história a novidade, e a dor do caso que em tudo é risível. E assim vai prosseguindo, mostrando-nos o vendedor da felicidade, um caso dos mais comuns nos nossos dias, em que ansiamos tanto por nos aliviarmos do peso de viver. Um vendedor de colchões é muito mais do que um vendedor de conforto, mas um enganador, e um enganador que não engana a dor, mas o pobre sofredor. E daí vamos para o pichador e suas peripécias, junto com as peripécias de sua vítima, e uma crítica a essa vítima, que é por sua vez um enganador.
E assim vamos de golpistas baratos a dores baratas, mas como fazem sofrer, do pequeno mundinho dos bairros pobres, passando pelo mundo da música, desde o cantor sertanejo que tem um pai professor de sociologia, crítico da sociedade, que se envergonha do filho, até a alta música do rock, ninguém menos do que os criadores do Pink Floyd, em uma entrevista ficcional que nos envolve por não parecer ficcional. Não é um método novo na literatura, mas que chega a ótimos resultados quando bem trabalhado, como aqui.
O fim do mundo está próximo, o mundo vai acabar é o que se ouve em tempos difíceis, de mudança, de sofrimento, como ouvimos neste tempo de pandemia. O livro do Bruno não podia acabar melhor e, ainda, com uma chama de esperança, apesar de o personagem acabar consumido pela tristeza. É também a função do escritor: acender a esperança, mesmo onde não há ou está muito difícil.