Londres - O total de casos e o de mortes por país na pandemia geram rankings diferentes: EUA e Brasil lideram nos dois casos, mas a coisa muda do terceiro lugar em diante. Índia, Rússia e África do Sul estão em terceiro, quarto e quinto na contagem de infecções, mas Reino Unido, México e Itália registraram mais mortes. A diferença gera questionamentos e levou os governos britânico e chileno alterar a forma de contar e de informar os dados.
A própria ideia de um ranking está em xeque, pois não existe uma padronização sobre como as mortes devem ser averiguadas. Há apenas recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) - e não uma auditoria internacional sobre os números. Isso abre espaço para distorções involuntárias e para que regimes autoritários escondam dados indesejados. Mesmo em situações normais, a contagem de óbitos varia.
MUDANÇA
Em tentativa de agilizar o processo, a contagem de mortes na Inglaterra era feita com o cruzamento de duas listas: a de testes positivos para Covid-19 e a de mortes. Quando uma pessoa que teve o vírus morria, mesmo que meses após o diagnóstico, entrava para a conta.
"Por esse método, ninguém jamais poderia se curar da Covid-19", questionaram os professores Yoon Loke, da universidade de East Anglia, e Carl Heneghan, de Oxford.
Em 17 de julho, o ministro da Saúde britânico anunciou uma revisão dos dados.
TRÊS SITUAÇÕES
Hoje a contagem prevê três situações. Na primeira, entram pessoas com teste positivo que morreram por complicações da Covid-19, como pneumonia. Assim, o atestado deve apontar a causa da morte (Síndrome Respiratória Aguda Grave, por exemplo) e os fatores que a causaram (Covid-19).
No segundo caso, o paciente tem muitos sinais de Covid-19, mas não foi feito um teste. A OMS recomenda registrar como "diagnóstico clínico". Se houver confirmação depois, o registro muda.
Na terceira situação, a pessoa pegou Covid-19, mas a infecção não teve relação com a morte --um paciente que sofreu um acidente após o diagnóstico, por exemplo. A OMS indica que essa morte não pode ser atribuída à pandemia.
Outro ponto é que são feitos poucos testes. Alguns países só o aplicam em casos graves e que chegam aos hospitais. O Reino Unido levou semanas para incluir na conta as mortes em asilos, por exemplo.
A contagem de óbitos é ainda mais complicada onde não há sistemas eficientes de registros nem fora da crise sanitária, como em parte da África. Em lugares pobres sem acesso a médicos e menos ainda a testes, aumentam as chances de que as pessoas morram sem diagnóstico.