Em 3 de maio, um domingo, a estudante de enfermagem Giovanna Pavanelli, 21, chegou para um churrasco na casa da família, em Águas de Santa Bárbara (SP). Passou álcool em gel 70% para higienizar as mãos e foi para o quintal. Ao se aproximar do fogareiro, só se lembra de uma labareda vindo na sua direção.
"Minhas mãos ficaram em chamas. O fogo se espalhou para os braços, o tórax e as pernas. Só o rosto não queimou muito. Fiquei um mês internada com queimaduras de segundo e terceiro graus, tive que fazer enxertos de pele", conta. Ela ainda se recupera dos ferimentos. Dois dedos das mãos estão atrofiados.
Com a disseminação do uso do álcool em gel na pandemia para a higienização das mãos e a flexibilização da venda do produto mais concentrado (70%), centros de tratamento de todo o País têm registrado aumento de internações por queimaduras.
Em geral, são situações em que as pessoas higienizam mãos e braços com álcool e logo depois, distraídas, se aproximam do fogo: vão cozinhar ou acender churrasqueira, lareira, fogueira ou mesmo vela.
Dados inéditos da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) de centros de tratamento de queimados de 19 estados mostram que, desde 20 de março, 445 pessoas foram internadas com queimaduras relacionadas ao álcool 70% na sua forma gel ou líquida. O que mais chama a atenção dos médicos, no entanto, são os acidentes com álcool em gel, que inexistiam até então.
Não há dados oficiais sobre queimaduras por álcool nos anos anteriores. Segundo o Ministério da Saúde, elas não são contabilizadas em separado. Os Código de Internacional de Doença (CIDs) englobam queimaduras por corrente elétrica, radiação, raios, exposição ao fogo e contato com uma fonte de calor ou substâncias quentes.
"Com mais exposição do álcool no uso doméstico, houve aumento brusco de queimaduras. O álcool em gel deve ser usado quando a pessoa estiver na rua. Em casa, a higienização deve ser feita com água e sabão", diz o cirurgião José Adorno, presidente da SBQ.
A norma da Anvisa que flexibilizou a venda do álcool 70% tem validade de 180 dias--vai até setembro. Há uma pressão para que não seja prorrogada.
"A medida representou um dano à sociedade. É uma luta antiga retirar o álcool do ambiente domiciliar, fazer com que as pessoas entendam que o álcool, em gel ou líquido, é uma arma", afirma Adorno.
Em nota, a Anvisa diz desconhecer o aumento de acidentes envolvendo álcool 70%, que a flexibilização da venda ocorreu pela falta de álcool em gel no mercado no início da pandemia de Covid-19 e que a medida vale até setembro.
Segundo Adorno, além do álcool 70% ser mais inflamável, os frascos grandes têm mais chances de explodir quando próximos ao fogo, causando queimaduras profundas, que deixam cicatrizes e problemas funcionais.