A mitologia grega é riquíssima na sua filosofia e no seu arcabouço reflexivo. O conjunto de narrativas correlacionadas com mitos e seus significados lançam luz sobre o entendimento de nossa sociedade. Um dos grandes personagens é Aquiles, o herói da Grécia, um dos protagonistas e maior guerreiro da Guerra de Tróia.
Moldado ao longo do tempo como a acepção do belo e como guerreiro invulnerável, Aquiles é cultuado e exaltado nas obras literárias e nos estudos mitológicos. Assim como em todo herói, existe uma imensa carga dramática sobre ele que se depara com as contradições e dilemas impostos pelos deuses gregos. Um deles é ter que decidir sobre a sua própria continuidade de existência, ou seja, determinar se teria uma vida curta, abreviada, mas cheia de glória, ou uma vida longa, prosaica e diminuta.
Aquiles teve a vaidade inequívoca de recusar a mediocridade e preferiu a brevidade da existência para a "imortalidade" de uma glória a qual ele mesmo não usufruiria. Talvez o dilema de Aquiles seja a grande angústia da existência humana, a grande inspiração de parte da filosofia, o grande mistério das religiões, e a grande e extraordinária apoteose da literatura.
Afinal, o que é o ápice da existência humana? O que move o homem na busca dos holofotes, da eternidade não existencial, mas da grandiosidade? Uma vida curta? Uma brevidade da existência? A busca pela glória ou o reconhecimento histórico? A apoteose da existência? Aquiles escolheu a glória e imortalizou-se na recusa da mediocridade, mesmo no término pleno de sua existência humana.
Contemporaneamente, muitos vivenciam o dilema de Aquiles, mas sem os atributos de guerreiro excepcional da mitologia grega. A glória fútil, pequena e rasa e a busca de uma notoriedade fugaz estão na depressão embusteira de um vazio abismal das redes sociais que nem imaginam esses boçais que quanto mais curtidas e mais alcances mais pérfidas são suas glórias. O triunfal e deprimente culto à ignorância, a incivilidade e a descortesia seguem na antítese do processo civilizatório, no detrimento da ética, da postura e da decência coletiva.
Diferentemente de Aquiles, de uma existência abreviada, mas grandiosa e com significância, temos atualmente existências longas, despossuídas de sentido, e de grandeza.
Enfim, o dilema de Aquiles para uns é mera mediocridade.
O autor é bacharel em Direito, pós-graduado em Sociologia