Juro que tento seguir a onda da positividade e reforçar o time dos que acreditam num mundo melhor pós-pandemia, mas a realidade não ajuda.
Além dos números que não diminuem, seja na saúde, com mortos e contaminados, ou na economia, com falências, demissões e desemprego, o fim da quarentena e o tal do "novo normal" trouxeram de volta velhos hábitos, como o de arranjar desculpas e apontar culpados. O vilão da vez é o novo coronavírus.
Não se trata de minimizar os efeitos de uma pandemia e muito menos ser advogado de um vírus mortal que leva, diariamente, mais de mil brasileiros. Só não podemos jogar tudo na conta da Covid-19. É duro ser otimista quando percebemos que os tais planos para retomada do comércio, das aulas e da vida no já citado "novo normal", não passam de propaganda para eleições que se aproximam. Se der errado, o culpado já tem nome, sobrenome e até apelido: "Não fosse o vírus chinês..."
Não é justo cobrar um plano para tudo. Mas se as coisas funcionassem como planejado - ou prometido, teríamos, por exemplo, mais hospitais e escolas públicas em condições de minimizar o estrago na saúde e educação. Só que quando entra em cena o velho hábito de atribuir o erro ao outro para não se responsabilizar por nada, vem aquela conversa fiada de jogar a culpa no governo anterior.
Não sei aí no seu canto, mas por aqui, as campanhas já começaram com tudo. E, como esperado, o vilão já foi eleito. Eles têm o direito de se esconder atrás da pandemia. Mas não podem, de jeito nenhum, brincar com isso só para proteger seus interesses e ganhar votos.
E aí mora o grande perigo. A pandemia vai passar. Tudo indica que teremos brevemente uma vacina para a Covid-19, mas contra canalhice não há vacina.
O mais intrigante nessa história é que a coisa só vai começar a mudar quando, do lado de cá do balcão, assumirmos a nossa responsabilidade. A de cobrar e fiscalizar, independente se quem está sentado na cadeira reclinável recebeu ou não o seu voto. Tipo o que fazemos com o técnico do nosso time. Você pode até não gostar dele, mas não deixa de torcer pelo clube, mesmo que faça coro para uma troca de comando no fim de um ciclo.
A diferença entre o técnico do seu time e o político eleito é que apenas no segundo caso você tem opção de voto.
E terá outra vez, brevemente.
O autor é jornalista, colabora com Opinião