Tribuna do Leitor

Donizete

Patrícia Schubert
| Tempo de leitura: 1 min

Tocou a campainha na casa de meus pais. Eu lá estava. Ao interfone, uma voz masculina pedia por comida. Minha mãe disse a meu pai que, na geladeira, tinha um marmitex, fechado, por ele comprado no dia anterior e que o mesmo podia ser dado ao homem. Meu pai, minucioso, fuçou nas gavetas em busca de um garfo descartável para acompanhar a refeição, destinada a entrega. Não encontrou. Minha mãe lhe disse que levei o que lá tinha para uma festa na empresa onde trabalho. Levei "bronca".

Meu pai veio até mim e disse que sempre devemos manter talheres descartáveis para essas situações. Meu pai foi até o portão, abriu-o e entregou a refeição ao rapaz. Explicou que não tinha talher para acompanhar. O moço disse que "se virava". Agradeceu. Desejou que meu pai estivesse com Deus.

Meu pai retornou a casa e disse que se tratava de um jovem, descalço, envolto num cobertor. Esse acontecimento me faz recordar do andarilho que eles "adotaram" tempos atrás. Um senhor, de avançada idade, diariamente ia até a casa deles em busca do almoço. Todos os dias, meus pais separavam o almoço e uma garrafa de água gelada. A geladeira era repleta dessas garrafas, que esperavam a vinda do senhor cujo nome nunca soubemos. Depois de um período, o homem nunca mais voltou. Não sabemos o que aconteceu. Não importa. O que importa é que, com ou sem garfo descartável, levo a lição de ajudar sempre que possível. Não interessa a quem.

 

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