O tempo, amigo de quem como eu ama a solidão, e o pior dos inimigos dos que apreciam a vida social, me conduziram a tantas reflexões ímpares, as quais nem mesmo eu, que sou adepta de tantas filosofias alternativas que refletem sobre a vida e seus conceitos, me julgava capaz. Reconstruindo lembranças de minhas amadas aulas de filosofia com o professor Guerino Ninin, me vi inclinada a me classificar como agnóstica. Triste rotulação para mim, que sempre tive tanta fé em Deus, nas pessoas e na vida.
Refletindo sobre Deus, enquanto entidade suprema, tenho me questionado sobre teu silêncio ou sobre tua existência. Muitos que talvez estejam lendo me julguem ou critiquem, afinal, tal prostura é própria do ser humano, e fiquem à vontade, pois com certeza não falarão ou pensarão nada do que eu mesma já não tenha me questionado.
Mas, assombrada por tantas notícias sobre maldades escabrosas e inenaráveis, além de qualquer pensamento lógico, contra animais, crianças, me levaram a esse caminho reflexivo sem volta. Líderes das mais diversas religiões demonstram diariamente que falar em Deus, não os impede de compactuar com todos pecados, sobre quais pregam. Líderes políticos diversos fazem apologia a intolerância e egoísmo.
Deus não está mais no controle? Me questiono e por vezes até desejo que Deus se manifeste com suas pragas ou seus raios, obrigando o ser humano a voltar a ter medo de seu castigo e, portanto, voltar a tentar trilhar o caminho do bem. No início da presente pandemia mundial, resgatei um pouquinho de minha esperança, de que talvez o evento reascendesse nos seres humanos, o medo de Deus e o desejo de ser bom e fazer o bem.
Triste esperança a minha, vi pessoas ditas religiosas criando estratégias para burlar até o limite de compra de álcool em gel. Ouvi pessoas clamando que Deus exterminasse nações com o vírus. Vi pessoas desejando que seus desafetos pessoais, por ideologias políticas, religiosas ou por questões de gênero, fosse o alvo do vírus.
Os adeptos da fé irão neste momento se revoltar e aludir que no fim a justiça será feita, e os ímpios pagarão por seus pecados, ou que estou sendo radical. Sem duvidar, porém, questiono, quantas vítimas inocentes irão existir, até a tal esperada "intervenção ou justiça divina"? Talvez simplesmente Deus esteja cansado da hipocrisia do ser humano, que justifica na fé suas ações e omissões e ainda espera que o sofrimento de Jesus Cristo nos garanta a salvação.
E ainda, dentro dos moldes religiosos vigentes, quantos pecadores se arrenpederam de seus crimes e se acharam dignos de salvação, após uma vida de atrocidades? Como as religiões, dentro dos moldes atuais, podem moldar a alma humana, tão volúvel e propensa ao mal, se desde o início já oferecem a redenção e o perdão, pois, afinal, Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados? Como religiões que propagam o preconceito e a violência à questões de gênero reponsabilizam o desprovido por sua situação de vulnebilidade, e não se manifestam frente a tantas violências contra a integridade humana, podem ser exemplo e trazer luz à sombria alma humana?
Quantas pessoas como eu, que fazendo uma metáfora a qual quem conhece o mito da caverna de Platão, ou, já assistiu o filme Matrix, irá entender, terão abertos os olhos para um mundo triste e feio, onde o que importa é o ter e não o ser, o que importa são os desejos e não os deveres, onde moral e ética, amor e perdão são conceitos pregados e não aplicados, estarão como eu, sem fé ou esperança?
Quantos procurarão, como eu, alguma liderança que realmente pratique o bem e que seja exemplo de amor ao próximo, sem preconceito, fomentando na alma humana os bons sentimentos e desejos? Quantos, como eu, estão chocados por em tal momento de crise, o foco das discussões ser a escolha da pessoa para a campanha de Dia dos Pais?
Aos fãs da trilogia Matrix, digo que gostaria de escolher o comprimido azul e voltar a matrix. A vida sem reflexão, com uma fé que não questiona, mas que também não se aplica. Uma vida fácil, onde impera a omissão e a fé, que permite a prerrogativa de delegar sempre a "Deus" resolver todas as questões e inocentar as nossas omissões diárias frente as atrocidades cotidianas, as quais presenciamos e nos calamos, e esperar que o sofrimento e morte de Cristo, nos redima de nossos pecados e omissões e ainda, nos garanta a salvação.
Porém, quem como eu já abriu os olhos sabe que não é possível compactuar com a prática de tal fé omissa.
Mas ainda posso dizer que acredito que o ser humano tem potencial para o bem e para ajudar o próximo, se optar por ser responsável por sua própria salvação, mediante o exercício do bem e de boas ações, deixando de incumbir Deus de suas responsabilidades. Sempre achei uma verdadeira barbárie a concepção que Jesus Cristo sofreu e morreu pelos meus pecados. E se for, o que eu devo fazer diariamente para que o esforço dele tenha valido a pena?
E quem já se emocionou como eu quando assistiu ao comercial dos médicos sem fronteiras, talvez como eu acredite ser esse o caminho da nossa redenção, ou seja, a prática do bem. Quiçá um dia vejamos crianças serem educadas para ter como meta fazer o bem, e não apenas para escolher uma profissão que lhes traga dinheiro.
Tive um professor na faculdade, João Antonio Rodrigues, que sempre refletia que se as pessoas compreendessem que fazer o bem faz bem, talvez por egoísmo as pessoas aderissem a tal prática. Hoje, muito mais velha, com certeza entendo a complexidade de seu pensamento.
Como eu disse, ainda há uma pequena chama em meu coração que acredita em Deus e espera que ele se faça ouvir neste mundo triste em que vivemos. Desejo ver o bem prevalecer, a luz clarear as trevas e voltar a acreditar em Deus e no ser humano, o qual como Olavo Bilac, em seu poema Dualismo, tão bem define: "Capaz de horrores e de ações sublimes, Não ficas das virtudes satisfeito, Nem te arrependes, infeliz, dos crimes. E, no perpétuo ideal que te devora, Residem juntamente no teu peito, Um demônio que ruge e um deus que chora".