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Aprendendo sobre Lixo

Leandro Lopes
| Tempo de leitura: 2 min

Peguei um rapaz em flagrante, revirando sacos de lixo que, minutos antes, havíamos depositado na lixeira. Fui questioná-lo, de pronto, advertindo que não havia recicláveis no lixo orgânico. Para minha surpresa, o catador disse que recolheria o lixo espalhado. Apontou o carrinho e comprovou a quantidade de recicláveis que encontrou em outras lixeiras. Na tentativa de ensinar, aprendi. Nem todo cidadão deposita lixo orgânico em saco preto e reciclável em saco transparente, como deve ser.

Em casa, o lixo sempre foi organizado.

Alumínio, plástico, vidro, papel e papelão, devidamente separados. Por acaso, em nosso depósito, tinha uma quantidade razoável de recicláveis. Autorizei o Fábio a entrar, pois já estávamos, inclusive, apresentados. Surpreso, ele disse que levaria o dia todo para encontrar tudo aquilo.

Enfim, quase não coube no carrinho. Eu sempre acusei meu pai de ser acumulador.

Sugeri, inúmeras vezes, que descartasse recicláveis periodicamente, na coleta seletiva, mas ele sempre fez questão de acumular para doar aos catadores.

Esse episódio me remeteu à essência do meu pai, que sempre teve a dimensão dos outros, além de nós. Quem conhece o Sr. Benê, piadista, talvez não saiba que trata-se um homem sensível. De sorriso fácil, ele recusa roupa social e fez a opção por uma vida simples. Aparentemente, os nossos contextos são diferentes. De qualquer forma, se não fosse ele, eu não seria um advogado, trajado como tal. Isso tem a ver com renúncias ao lazer e, sobretudo, muito trabalho.

A gente sempre acha (apenas acha) que seremos diferentes dos nossos pais. Com o tempo, sem perceber, repetimos comportamentos. Tantas vezes, mas nunca por rebeldia, confrontei meus pais e até tentei impor pensamentos. Eles sempre me deram a liberdade de discordar. Talvez, a educação (ou aprendizado) seja um processo de percepção, portanto, contínuo. Na véspera do Dia dos Pais, o Fábio me fez refletir sobre a grandeza do meu pai.

Os heróis estão por aí: catando recicláveis, vendendo churros ou resguardados em casa. Eles têm o dom do anonimato e da onipresença.

 O autor é advogado, corregedor-geral da Prefeitura de Bauru

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