Há exatos 20 anos, em um 11 de agosto, minha mãe Celina Neves foi habitar a moradia celeste de deus pai.
Mulher guerreira, desde pequena lutadora, pois com a guarda segura e exigente dos pais, conseguiu, mesmo tendo só o primário, ir até o 4º ano, descobrir o mundo com suas leituras, pois devorava os livros. Nunca deixou de estudar, era ávida na descoberta do saber. Desde sua tenra idade, onde aprendera a ler escrever, sentada num caixote de cobras, que meu avô enviava ao Butantã, pois era chefe de estação da NOB, lá pelos lados de Corumbá, no Mato Grosso.
Sempre procurou cercar-se de bons de livros, obras famosas, pois não tinha a internet nem o google. Era leitura, e assimilava com uma rapidez que fazia inveja. Meu avô, homem letrado, e inteligente, muito além do seu tempo, tinha suas discordâncias com o governo da época. E volta e meia estava preso no presídio Maria Zélia, em São Paulo, por crime político. Era contrário ao governo. Como minha mãe era jovem, e pronta para novas descobertas, foi cursar datilografia e estenografia, prestando concurso e ficando apta para lecionar. Isso posto, o destino estava marcado, foi o que garantiu a ela, quando meu pai faleceu, com 33 anos e deixou três filhos, pequeninos: o Paulo, com 4 anos, eu, Carlos, com 3 anos, e Celina Elizabeth com 1 ano.
Como diz a poesia, "e agora José?".
Arregaçou as mangas e construiu um legado que viria a ser referência na cidade de Bauru, a "Escola Progresso", depois Associação Progresso de Ensino e Cultura - Apec. Onde tinha como carro-chefe a datilografia e a estenografia, da qual era especializada... Mas achava pouco...
Tinha um ideal maior, criou o curso de português e matemática, mais tarde supletivo, criou o curso de secretariado bi-lingue, com inglês e alemão. Foi pioneira no curso de esperanto em Bauru. E logicamente tinha o grupo de teatro "Gil Vicente", que tantas glórias trouxe a Bauru. E hoje tem o seu nome estampado no Teatro Municipal de Bauru.
Sempre à frente do seu tempo, mantinha uma coluna no JC: "Bom dia, Bauru", onde apresentava situações da cidade, causos da vida pessoal e chegou até escrever um livro, "Retalhos da Vida". Que a Edusc lançou na Universidade do Sagrado Coração (USC). Fundou a Academia Bauruense de Letras, que até hoje tem os representantes em nossa cidade. Já se passaram 20 anos, o tempo gira muito rápido, mas as sementes lançadas por D. Celina brotam até hoje através dos seus filhos.
Brilha estrela maior no firmamento.... "Só aqueles que tem o dom de ensinar tem um brilho de estrela no olhar"...
Palavras gravadas em sua lápide.