Com 10 mil quilômetros quadrados de extensão, o Líbano ocupa uma área equivalente à metade do Estado do Sergipe. O avô do médico Samir Salmen, que vive em Bauru, imigrou de lá para o Brasil na década de 30. O profissional, que esteve no país recentemente, comenta o cenário atual e crê em tempos mais pacíficos. "O Líbano deve caminhar para um acordo de paz", prevê.
Isso porque, na última quinta-feira (13), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que Israel e os Emirados Árabes Unidos fecharam um tratado histórico neste sentido. A influência deste acordo dos vizinhos, para Samir, cria esperanças de mais estabilidade no Líbano, que sofre com as consequências da pandemia, a explosão do Porto de Beirute e o domínio do Hezbollah.
Nesta entrevista, o descendente de libaneses avalia a situação. Confira alguns trechos:
JC - Qual é a relação do senhor com o Líbano?
Samir Salmen - O meu avô imigrou para o Brasil nos anos 30 junto com José Salmen. O sobrenome é igual, mas eles não tinham qualquer parentesco. Os dois passaram a viver em Agudos depois que uma praga de insetos destruiu muitas propriedades agrícolas libanesas. Boa parte da minha família optou por tentar a vida nos EUA, mas o meu avô não quis. Isso porque, em 1870, Dom Pedro II viajou para o Líbano e propagou a imagem do País que comandava.
JC - O senhor esteve no Líbano recentemente, correto?
Samir - Eu fui para o Líbano, pela primeira vez, em novembro do ano passado. Na época, os movimentos populares começavam a surgir. Coincidentemente, o objetivo dos mesmos se assemelhava ao dos protestos que ocorreram no Brasil em 2013. A população ficou cansada da corrupção e da taxação de impostos. Para você ter ideia, o governo libanês resolveu cobrar pelas ligações de WhatsApp.
JC - O Líbano é um país milenar. De que maneira a sua história exerce influência sobre o atual cenário?
Samir - Por estar em um entroncamento entre a Ásia, a Europa e a África (veja ilustração), o Líbano sofreu inúmeras invasões ao longo da sua existência. Houve dominações de hititas, assírios, hebreus, árabes, egípcios, turcos e franceses. Estes, por sua vez, fizeram com que a nação sofresse uma forte influência cristã. De 1926 até hoje, o poder político é dividido de maneira fragmentada para manter certa estabilidade entre as etnias. Um muçulmano xiita assume o comando do Parlamento e um muçulmano sunita, o cargo de primeiro-ministro. Um cristão maronita, por fim, fica com a Presidência da República.
JC - Qual é a opinião do senhor sobre o Hezbollah?
Samir - No século 20, Israel entrou em guerra com a Organização para Libertação da Palestina [OLP] e o Líbano passou a receber inúmeros refugiados palestinos. Por isso, Israel invadiu o Líbano. Logo depois, sob o pretexto de protegê-lo, a Síria também decidiu dominar o país. Em 1997, a Organização das Nações Unidas [ONU] expulsou os invasores. Porém, o local ficou devastado e a situação exigiu a presença de um Exército forte, momento em que nasceu o Hezbollah. Com um braço armado, o partido político tem a visão de uma base terrorista, mas os libaneses o consideram um grande protetor. O Irã, pela sua inimizade com Israel, começou a armar o Hezbollah com tecnologia de ponta.
JC - Como fugir deste cenário em plena ebulição?
Samir - A assinatura de um tratado de paz entre os Emirados Árabes, os EUA e Israel, na última quinta-feira (13), mostrou que o Líbano também deve caminhar para um acordo semelhante com Israel. Assim, os libaneses poderiam profissionalizar o seu Exército e substituir o Hezbollah. Eles também ganhariam turistas, segurança e mercado. Já Israel teria tranquilidade.
Confira o primeiro episódio do novo podcast, JC Entrevista: Uma viagem ao Líbano
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