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Mães na quarentena

Mariana coutinho
| Tempo de leitura: 3 min

O cheiro de café continua forte na casa, os cachorros ainda correm e brincam pelos cômodos, mas, nos últimos meses, duas mudanças foram cruciais na rotina de Isa Ribeiro, 29 anos: um vírus que a impede de ir à rua e o bebê que chegou dias antes de todos se trancarem em casa. A produtora de conteúdo já imaginava que o puerpério seria uma das fases mais difíceis da maternidade, mas não poderia sonhar que passaria por ela em um novo contexto global.

Como Isa, muitas mães estão experimentando os primeiros meses de vida de seus filhos e as bombásticas mudanças hormonais sem a rede de apoio física de pais e amigos.

O puerpério, também chamado de quarentena ou resguardo, começa logo após o parto, com a expulsão da placenta, e pode durar até oito semanas. É uma fase de adaptações físicas e psicológicas. Nos primeiros dias, algumas mães experimentam o chamado baby blues, com sentimentos amplificados de melancolia ou irritação. "Elas podem chorar sem razão, ter problemas para comer e dormir e ficarem bravas com o bebê ou com o parceiro", descreve ginecologista e obstetra Flávia Tabarini. Ela acredita que, em tempos de pandemia, essas mudanças podem ficar ainda mais acentuadas. Por isso, é imprescindível que o pai compartilhe as responsabilidades e esteja atento a essas variações hormonais. 

Na casa de Isa, os cuidados já são divididos. A produtora de conteúdo acredita que o isolamento social com o bebê acabou a unindo mais ao marido: "A gente já era muito parceiro, mas agora está ainda mais". Ele pegou pesado nas tarefas domésticas e no cuidado com Levi para que ela focasse na amamentação e na recuperação pós-parto. O bebê chegou antes do previsto (de 33 semanas, no dia 9 de março). "A baixa hormonal me pegou logo de cara e como ele nasceu prematuro e já foi para a UTI, foi tudo estranho: eu ainda tinha a barriga, mas não tinha um bercinho do lado e não lembrava do rostinho dele direito", recorda.

Depois de uma semana no hospital, Levi foi para casa no início da quarentena, e os pais acharam que ficariam isolados por apenas alguns dias. "Quando vimos a proporção que a coisa tomou, ficamos assustados", conta Isa. "O que me ajudou foi viver um dia após o outro. Focamos no mundo do Levi e isso nos deu esperança."

70 DIAS SEM APOIO

A chegada de João, no último 25 de abril, também transformou a vida da professora universitária Alice de Marchi, de 37 anos. Ela e o marido ficaram sozinhos com o bebê por 70 dias. "Acabou sendo algo paradoxal, porque ao mesmo tempo em que ficamos sem o apoio físico da família, acabamos nos unindo mais os três. Isso foi bom", observa Alice.

Perto do terceiro mês de vida de João, a privação de sono para dar conta de tudo começou a pesar, e eles resolveram pedir ajuda. "Meus pais moram no Sul e são grupo de risco, então não podiam vir. Minha irmã, que estava em São Paulo, fez um isolamento rigoroso e depois veio para cá de carro ficar com a gente", conta Alice. "Ela tem sido a salvação da pátria", brinca.

A psicóloga Grace Falcão ressalta que as mães devem compartilhar seus sentimentos e responsabilidades ao máximo e procurar ter momentos de autocuidado: "A mãe não tem que dar conta de tudo e precisa ter um tempo para ela também. Nada será perfeito e tudo bem." A quebra da idealização da maternidade, que normalmente acontece no puerpério, pode ser ainda mais intensa diante das mudanças de rotina que a pandemia impôs.

Além de não poder ajudar presencialmente nos primeiros cuidados, alguns avós ainda não puderam abraçar os seus netos. A avó de Ernesto, que nasceu em 28 de maio, por exemplo, só o viu da porta, com uma distância de mais de dois metros. "Acabou sendo meio triste", conta a advogada Constance Modesto, 32 anos, mãe do menino.

"Ele foi uma surpresa maravilhosa na minha vida", diz. Explica-se: depois de ouvir de médicos que seria difícil engravidar por conta do câncer de mama que venceu há dois anos, a curitibana estava desencanada com essa possibilidade, mas aconteceu.

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