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Deixa que eu chuto

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 2 min

Um amigo das antigas, do tempo onde malandragem era troco em balas e a alegria tinha gosto de Tubaína dentro de um saquinho plástico, veio com uma conversa estranha: "Sou a favor da ditadura." Surpreso, tentei encontrar uma reposta no silêncio. Foi aí que lembrei do Dinho, o ditador da minha infância.

Dinho, que na verdade é Edson, comandava o futebol da rua Júlia Nomura. Neto do seo Damasceno, o barbeiro da mesma rua, era o Dinho que ditava o ritmo da pelada pelo simples fato de ser ele o dono da bola.

Naquela época, bola de capotão era artigo de luxo. Feitas de couro curtido, não eram baratas e poucos tinham tal privilégio. Em tempos onde árvore de Natal era um galho seco pintado de branco enfiado numa lata de tinta de 20 litros, não sobrava grana para isso lá em casa. Quando aparecia uma bola ela não era de capotão e, por isso mesmo, colocava três sacolas plásticas por cima para que ela não se desgastasse tão rápido e durasse mais. Então, o jeito era aguentar o Dinho.

Ao contrário do que parece, futebol de rua também tem regras. Na ausência de traves, só vale gol em chute rasteiro; quem escolhe os times são os dois melhores; e se alguém gritar "olha o carro" o lance para na hora. E, claro, tem o dono da bola. Geralmente o último a ser escolhido. No nosso caso, era o Dinho.

Ele podia não ter talento para o ofício, mas era melhor estar no time dele do que contra. Como dono da bola, era dele o veredicto final em qualquer situação. Sob a ameaça dele pegar a bola e acabar com a brincadeira, a gente ia tolerando, respondendo com silêncio suas injustiças.

Até que um dia o Rodrigão se enfezou e mandou um dedão daqueles. Chute feio, sem rumo e que só parou na ponta da grade da dona Alzira. Calados, ouvimos o esvaziar da bola furada. Era a alma deixando aquele corpo. Não houve tempo para o luto. Dinho ficou sem ação. Rodrigão, eu e os outros lamentamos, mas ficamos livres para seguir nosso caminho. A turma foi embora e o dono da bola perdeu a única coisa que nos prendia a ele. Aquela ditadura chegava ao fim.

Pensei em contar essa história para meu amigo que defendeu a volta do regime militar sem nunca ter vivido um. Mas lembrei que ele nunca foi de jogar bola, sempre morou em apartamento e que daquela rua só restava ali o Rodrigão. Por pouco não fiquei calado numa discussão que só esquentava.

Pelo bem da convivência, quase respondi com silêncio. Mas logo lembrei que, em momentos onde o diálogo parece inviável, é importante ter consciência que a luta pela liberdade começa no campo mais complicado de todos: dentro de nós. Nesse caso, calar-se é entregar o jogo. Foi então que olhei para o Rodrigão como quem diz "deixa que eu chuto" e sai para o abraço em defesa da democracia.

 O autor é jornalista, colaborador de Opinião

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