Aos 33 anos, a bauruense Laísa Bonafim Negri dedicou quase toda a sua vida aos estudos. Tamanho esforço vem surtindo resultados, assim como a pesquisa sobre a vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo grupo do qual ela faz parte, vinculado à Harvard Medical School, nos EUA.
Farmacêutica-bioquímica pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP/USP), onde também fez o mestrado e doutorado, a pesquisadora vive em Boston desde março de 2020. A partir desta data, ela deu início ao pós-doutorado.
Filha da assistente social aposentada Rosana Aparecida Bonafim Negri e do tecnólogo Luiz Carlos Negri (já falecido), Laísa possui apenas um irmão, o advogado Luiz Carlos Bonafim Negri. Ele e a mãe da profissional ainda moram em Bauru. A pesquisadora se casou com o fisioterapeuta oncológico e instrutor de pilates Luiz César Justo, de 39 anos. O casal não tem filhos.
A rotina atribulada e o fuso de uma hora antes em relação ao Brasil permitiram que Laísa conversasse com a reportagem somente por mensagem de voz. Confira alguns trechos da entrevista:
JC - A sua família ainda vive em Bauru? Você a visita com qual frequência?
Laísa - A minha família mora em Bauru e a do meu marido, no município mineiro de Andradas. Eu também tenho muitos amigos na minha cidade natal. Pretendemos visitar os nossos entes queridos uma vez por ano. Por enquanto, não dá para sair dos EUA, pois a fronteira está fechada.
JC - Por qual motivo você optou por cursar Farmácia?
Laísa - Eu cheguei a prestar Medicina. Depois, comecei a pesquisar outras graduações e, logo no início, me encantei por Farmácia, porque gostava muito de biologia e química. Fiz a prova e, quando entrei, tive a certeza de que era aquilo que queria.
JC - Quais pesquisas balizaram o seu mestrado e doutorado?
Laísa - Eu sou mestre e doutora em Ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP/USP). Em ambos os casos, me dediquei à subárea de química e física biológica. Nela, estudei complexos químicos para o tratamento de células tumorais e doenças infecciosas através da terapia fotodinâmica, ou melhor, à base de luz.
JC - Como você chegou aos EUA?
Laísa - No decorrer do meu doutorado, entre 2017 e 2018, eu tive a oportunidade de estudar na Harvard Medical School. Neste período, conheci alguns professores, entre eles, o doutor Jeffrey A. Gelfand, que se tornou o meu atual orientador. Quando terminei a pós-graduação, no final do ano passado, ele me convidou para ser a sua aluna de pós-doutorado. Desta forma, virei pesquisadora do Massachusetts General Hospital, afiliado da Harvard Medical School.
JC - De que forma você entrou para o grupo de pesquisa sobre a vacina contra a Covid-19?
Laísa - O meu orientador faz parte do Centro de Vacinas e Imunologia do Massachusetts General Hospital. Desde que eu cheguei aos EUA, ele me encaixou no grupo. O meu projeto inicial não tinha qualquer relação com a Covid-19, porque foi desenvolvido no final de 2019, antes do surgimento da pandemia. Nós nos mudados para o país em março de 2020. Na ocasião, o governo norte-americano começou a liberar verba para pesquisas envolvendo a doença. Como já estava inserida na equipe do professor Jeffrey, demos início ao estudo sobre a vacina.
JC - O novo coronavírus tem algum comportamento que chame sua atenção?
Laísa - Os médicos e cientistas têm estudado a Covid-19 como uma doença multissistêmica, não apenas enquanto uma enfermidade inflamatória. Um estudo recente da revista Nature reportou que as suas consequências incluem complicações trombóticas, disfunção do miocárdio e arritmia, síndromes coronárias agudas, lesão renal aguda, sintomas gastrointestinais, lesão hepatocelular, hiperglicemia e cetose, doenças neurológicas, sintomas oculares e complicações dermatológicas. Acredita-se que o acometimento de vários órgãos ocorre devido ao fato de o receptor de entrada para o novo coronavírus ser expresso em diversos tecidos extrapulmonares. Em relação às tempestades inflamatórias, elas acontecem porque a resposta do nosso sistema imunológico fica exacerbada para tentar expelir o vírus. Inclusive, existem medicamentos em fase de testes para tratá-las, como a dexametasona e o tocilizumabe.
JC - O vírus apresenta algum comportamento que dificulta a formulação de uma vacina?
Laísa - Na minha opinião, o principal comportamento do vírus que dificulta a formulação de uma vacina corresponde à sua velocidade de propagação. Portanto, o nosso maior desafio é o tempo. Nós precisamos agir rápido, porque tem muita gente perdendo a vida.
JC - Em que fase está a vacina desenvolvida pelo grupo do qual você faz parte?
Laísa - Liderada pelos doutores Mark Poznansky e Jeffrey A. Gelfand, a vacina é desenvolvida pelo Centro de Imunologia do Massachusetts General Hospital. Está em fase de avaliação pré-clínica com ratos. Nós obtivemos resultados promissores e, agora, usaremos um número maior de animais do tipo. Se continuarmos assim, provavelmente, os próximos testes ocorrerão em macacos. Depois, a substância rumará para os três passos da fase clínica antes da sua aprovação efetiva. Há, portanto, um longo caminho para percorrermos. Porém, existem alternativas ao redor do mundo, até mesmo, mais adiantadas.
JC - Como está a quarentena por aí?
Laísa - No início, as coisas foram bem difíceis. Sinto que as pessoas daqui tendem a respeitar mais as regras do que no Brasil. No estado de Massachusetts, os casos atingiram o equilíbrio e, na cidade de Boston, a rotina de outrora voltou ao normal aos poucos.