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Cultura e humanismo

Carlos Pinto
| Tempo de leitura: 3 min

Estava assistindo a uma live que o grande pianista Amilton Godoy estava apresentando pela TV Cultura. E voltei aos tempos do Zimbo Trio, onde ele, Rubens Barsoti e Luis Chaves compuseram um dos grandes ícones do jazz e da bossa nova. Relembrei uma apresentação em São Carlos, no Teatro de Arena, no final dos anos 60, durante um dos Festivais de Teatro Amador do Estado. Esse teatro ao ar livre comportava mil espectadores e estava completamente lotado, com gente nos muros e nas árvores que circundavam essa arena.

Tempos em que a cultura, apesar dos anos de chumbo, era respeitada e patrocinada, tanto pelo governo federal quanto e, principalmente, pelo governo de São Paulo. Hoje, existe um grande equívoco quando se analisa este item. Me recordo de uma eleição presidencial na França, quando Miterrand foi eleito principalmente por dois itens de seu programa. Um deles, as propostas para a área cultural. A cultura brasileira hoje é analisada pelos governantes como sendo, basicamente, os programetes da Rede Globo.

Este equívoco está construindo um atraso que virá a prejudicar a sociedade brasileira em um breve tempo. Não se constrói uma grande Nação sem o devido respeito aos bens culturais dessa Nação. A cultura brasileira não está restrita ao eixo São Paulo/Rio, nem tampouco é produzida pelos nossos canais de TV. Nossa raiz cultural está fincada nos mais variados ritmos do nosso folclore, bem como nas tradições que recebemos da Mãe África, através dos navios negreiros e também dos ritmos portugueses trazidos pelos colonizadores.

Nessa questão do folclore, só no quesito do Boi Bumbá existem mais de 300 manifestações espalhadas por todo nosso território. E quem pratica e mantem vivas essas tradições são, na verdade, as populações mais humildes e desprovidas de recursos financeiros. Existia em São Paulo, na cidade de Olímpia, um dos maiores festivais de folclore do país, do qual nunca mais ouvi falar, e nem sei se ainda resiste. Aos poucos, ela vem sendo asfixiada pela falta de uma política nacional para a cultura, e pela falta de administradores no MINC, que realmente entendam a cultura como um todo, e não apenas, como teatro e cinema.

Torna-se urgente que o Governo Federal faça um exame de consciência e passe a ter uma política definida para o setor. Infelizmente os cidadãos que têm ocupado o cargo na Secretaria de Cultura têm demonstrado pouca eficiência e entendimento do que seja o setor. Ocupar o cargo simplesmente por ocupar, por questões de currículo ou de sabugice, só contribui para uma derrocada total da cultura brasileira. Os donos da Globo não representam a nossa cultura.

O que representa nossa cultura são as mais variadas manifestações artísticas, que ocorrem e são produzidas nos mais de cinco mil municípios do país. E essas estão entregues ao mais definitivo abandono. Está na hora de o Governo Federal, e também dos governos estaduais, passarem a produzir programas que procurem alavancar as produções que são realizadas nesses milhares de municípios. Está na hora dos ocupantes de cargos oficiais de cultura tirarem a bunda dos macios sofás e cuidar do nosso bem maior, que é a nossa raiz cultural. Como pregava Plinio Marcos, "um povo que não ama e não preserva as suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre."

 O autor é jornalista

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