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Brava gente brasileira

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

"Arrebente e estafe quantos cavalos necessários, mas entregue a carta com toda urgência", me aconselhou José Bonifácio. Destinatário: D. Pedro. Na colina do Ipiranga, a testa franzida a lê: "O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ele fará sua separação", escreve Leopoldina. Sete de setembro de 1822. Épico de satisfação, D.Pedro, de espada em punho, declara 'Independência ou morte!' Meu nome? Paulo Bregaro.

Florença, 08 de abril de 1888. A pedido da família real, o quadro. Final da monarquia e crise de imagem coroam o desprestígio familiar imperial causados desde o final da Guerra do Paraguai. Enalteço o fundador da dinastia na figura de herói valoroso. Preciso destacar a figura guerreira e monárquica. Devo construir imagem positiva, atuante da identidade brasileira. Apesar de a comitiva ser singular, pinto-a no plural. O grito busca uma colina, próximo ao riacho do Ipiranga. Diarreia visita nosso protagonista, interrompendo seu trotar.

Uniformes de gala, elmos sobre garbosos cavaleiros da comitiva, alazões - bobagem! Simples tropeiros, cobertos pela lama e poeira do caminho, montados na resistência de mulas e éguas enfrentavam o sol de percursos íngremes e esburacados da Serra do Mar. À esquerda, bois, curiosidade e espanto de um homem do campo puxam uma carreta com toras. Meu nome? Pedro Américo.

O final você conhece. O Brasil mudou pra continuar igual. Embora declare sua independência à Portugal, a elite, forte e unida, mantém o povo afivelado economicamente ao trabalho escravo, ao cabresto metrificado. Da página infeliz da nossa história ao passado desbotado da memória, independência ou morte. Paulo Bregaro e Pedro Américo não participam do quadro. São muitos de nós, os espectadores, orientados apenas a observar, tal qual olhos ressequidos de esperanças transferidas e de promessas anafóricas. Carregam o embrulho, jamais o conteúdo. São companhias de festa sem música, de dança sem par. Existem para preenchimento de espaços.

São palavras em estado de dicionário repousadas, desconhecedoras da inquietude poética. Registram o supérfluo da Nikon excursionista. É o anticidadão acoimado a viver em condição de rascunho, refratário a passar a limpo.

O autor é professor do colégio Tesla, autor de antologias, artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa. (alexandrebenegas@gmail.com)

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