Atitude

Desajuste além da conta

Rachel Botelho
| Tempo de leitura: 2 min

Irritação, agressividade, mudanças bruscas de humor, desânimo, isolamento. Cara feia não é novidade para quem convive com adolescentes, mas mais difícil que ter paciência é saber distinguir atitudes típicas dessa fase de sinais de um problema crescente entre os jovens: a depressão.

Nos EUA, a prevalência da doença na faixa dos 12 aos 17 anos vem aumentando significativamente. No Brasil, embora faltem estudos representativos da população, pesquisadores e médicos dizem que o crescimento é realidade e, pior, que boa parte dos casos não é identificada nem tratada.

Uma das razões é o velho estigma que cerca a depressão - tanto que a reportagem não conseguiu encontrar nenhuma família disposta a dar entrevista. Mesmo pediatras e hebiatras (médico especialista em adolescentes) deixam passar indícios que apontam para a necessidade de cuidados especializados.

Para Jackeline Giusti, psiquiatra, até os adolescentes acreditam que não se sentir bem é normal. "Eles não têm termômetro para a tristeza. É complicado para o leigo se dar conta do que acontece e os pais têm dificuldade de falar sobre isso", afirma.

PISTAS

Uma das principais pistas para identificar o problema é a repetição de sentimentos e atitudes negativos. "Um adolescente que se irrita e depois se diverte com os pais não apresenta sinais de depressão. Já outro que tem insônia, perda de interesse em atividades, irritabilidade constante pode estar no limite", afirma a psicóloga Cristiana Renner, doutora em ciências pela Unifesp.

Nessas horas, é fundamental que os pais demonstrem disposição para ouvir e dar apoio. "Frases como 'Não precisamos conversar agora, mas estarei disponível quando você quiser' podem ser muito reconfortantes e promover segurança", diz a médica Lee Fu I Wang.

Por outro lado, pressionar o jovem a falar ou dizer que ele precisa ter força de vontade para melhorar podem surtir efeito contrário, segundo a médica, levando o adolescente a se sentir culpado por dar trabalho aos pais ou ser incapaz de reagir.

A adolescência sempre foi uma fase crítica devido às intensas mudanças físicas, mentais e no ambiente familiar, mas fatores como o estresse decorrente das cobranças por boa performance escolar e a baixa resistência à frustração vêm transformando muitos jovens em panelas de pressão.

"Não são apenas os adolescentes. Na sociedade atual, há maior dificuldade de as pessoas lidarem com seus problemas, todos têm que estar sempre felizes", afirma Cristiana Renner.

O descontentamento com a imagem corporal, o medo do futuro e as desilusões amorosas também são fatores geradores de estresse importantes. "Podem até ser traumáticas para um adolescente que tem que lidar com tantas outras mudanças e está tentando adaptar-se", afirma Lee.

Não por acaso, no início da adolescência, principalmente após o início do ciclo menstrual, as meninas são mais suscetíveis à depressão que os garotos.

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