Tribuna do Leitor

Newton, Einstein e Nós

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. dr. aposentado do Dep. de Engenharia Civil Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru
| Tempo de leitura: 3 min

Ao terminar o ensino médio, cheguei a pensar em estudar fora numa famosa universidade e me especializar na área das ciências exatas. Gostava da área, mas acabei não indo por receio de me confinar no mundo das ciências, que é apaixonante, mas requer muita dedicação e abdicação para ter algum sucesso. Optei por ficar aqui mesmo, no meu mundinho, casar e ter filhos, tocar a vida de um modo mais diversificado e normal.

Não me arrependi, pois consegui balancear tudo que achava importante: família, estudos, trabalho e lazer. Nas ciências exatas, fui até o ponto que me sustentou com certa folga, e não prejudicou muito o restante, uma vez que a ciência é como o universo: quanto mais se estuda, mais ela se abre e menos se enxerga seu fim.

Lembro também que Newton e Einstein, de certa forma, se sacrificaram, ou, conforme o ângulo que se queira ver, até negligenciaram sua vida pessoal, para se dedicar às ciências. Newton nunca casou e constituiu família, caindo fora antes de cair dentro. Einstein casou, teve filhos, mas também logo caiu fora: foi cuidar da vida, criar teorias, mas não abandonou as mulheres. De qualquer modo, acho que todos nós agradecemos aos dois pelo que fizeram. Newton, o pai da Lei da Gravitação Universal e das três famosas leis da Mecânica Clássica que levam seu nome, em quem me baseei um bom tempo em minhas aulas de física e resistência dos materiais. Einstein, o pai da Teoria da Relatividade, que sempre quis entender por completo, parte consegui e outra nem tanto, principalmente a que diz respeito a "relatividade do tempo".

Ao contrário de Newton e Einstein - que optaram por serem pais de teorias científicas ao invés de crianças de verdade -, sempre achei que criar filhos poderia dar satisfações, mas já tinha consciência que daria responsabilidades duradouras, preenchendo bem mais o tempo do que estabelecer teorias complexas da natureza. Lógico que a dimensão de tudo fiquei sabendo mesmo bem depois que tive os filhos, principalmente quando eles foram crescendo, pois antes achava que tudo funcionaria como uma ciência exata. Não era bem assim, mas aguentei firme e fui me adaptando. Além dos filhos, também foi prazeroso ter uma companheira com quem pudesse compartilhar a vida, e que pudesse também conversar, namorar, passear e dividir uma comidinha caseira deliciosa que ela faz tão bem, o que já dura quase 50 anos de convivência.

A diferença é que eles, "os gênios" das ciências, fizeram algo inédito aos olhos do mundo, que chama atenção pela novidade e utilidade, que está associado aos avanços tecnológicos com consequências de todo tipo, boas e más, como o celular e a bomba atômica. E nós, "os normais" que constituímos família, apesar das receitas básicas já serem bem conhecidas, enfrentamos todos a mesma questão: a novidade são os filhos "zero km" que vão ter suas próprias vontades, com os novos costumes e as novas tecnologias, e, principalmente, nós mesmos que nunca tínhamos convivido com tudo isto. O aprendizado é do adulto e da criança e ocorre tudo simultaneamente, dia após dia, resultado este que não depende só de quem fala, mas também de quem ouve, e, no final, está também associado para o bem e para o mal, na qualidade do mundo.

Pelo que vejo acontecer por ai, sinto que fiquei com saldo bem positivo em termos de responsabilidades e de valores plantados: na família, no trabalho, com os amigos e com todos que tive algum relacionamento ou contato. Como professor, desempenhei a função com prazer e minha maior preocupação foi primeiro ensinar a pensar. E, como jogador de tênis, curti mesmo na base de lazer esportivo, mas gostei, me diverti, me relacionei, e acho que ganhei mais partidas do que perdi. Entretanto, apresentei ao mundo outro tipo de contribuição, que suplanta fácil a Newton, mas perde por pouco para Einstein: deixei 3 filhos e 2 netos. Até agora!

Comentários

Comentários