A quarentena do vizinho é sempre mais verde. Talvez pareça também um tanto mais confortável, divertida e segura. Acompanhar a vida alheia durante a pandemia, principalmente por meio das redes sociais, pode nos causar um sintoma difícil de admitir: a inveja.
Felizmente, a engenheira Fabiane Rodrigues, 41 anos, não tem problema com isso. Ela consegue aceitar uma certa "invejinha" da vida que um conhecido tem levado nesse período. "Ele está em uma praia na Costa Rica. Ele está surfando, tocando violão e, acredito, no meio de um período sabático", disse.
De fato, a quarentena do conhecido da Fabiane é de causar inveja. O publicitário Leonardo Nicolia, 41 anos, está vivendo desde março em uma praia de Santa Teresa, na Costa Rica. Até o dia 24 de agosto, o país havia registrado 362 mortes pelo coronavírus - os índices de contágio são considerados um dos mais baixos da América Latina. Além disso, em Santa Teresa, são poucas as restrições para quem mora na praia.
"Cheguei por aqui no dia 13 de março. No dia 15, as fronteiras foram fechadas. Eu fiquei preso no paraíso", brincou Nicolia. "Surfo todo dia, toco violão, montei uma banda, faço ioga, perdi 5 quilos...Tenho trabalhado daqui. Não pretendo voltar para o Brasil tão cedo. Decidi aceitar esse presente da vida", completou.
Em seu Instagram, Nicolia posta registros desse privilégio. Claro, como não podia deixar de ser, os registros, às vezes, provocam comentários que podem esbarrar nela, na inveja. "No começo, ficava até reticente em postar. Mas, com o tempo, também veio uma outra resposta. Quando eu posto um pôr do sol na praia, abre-se também uma luz no fim do túnel para quem está vendo", afirmou.
A situação de Nicolia pode ser considerada bastante específica. Mas o sentimento de inveja (ou "invejinha") também pode surgir em momentos muito mais prosaicos, como durante uma reunião de trabalho pelo Zoom. "De repente, na tela do computador, apareceu uma lareira de verdade. A pessoa tem uma lareira de verdade em casa. Naquele momento, senti inveja do isolamento social alheio", disse uma advogada, que preferiu não ter o nome publicado por motivos de "admissão de inveja".
REVOLTA
Isabel Marçal, cofundadora e presidente do Instituto Bem Estar, apontou uma variante, um sentimento que muitos nomeiam de inveja, mas que, na verdade, é revolta. "Vejo mais revolta do que inveja. Uma pessoa que está há mais de 100 dias trancada em casa pode ver a ostentação do outro na pandemia como algo que exacerba nossas desigualdades. Existe também a polarização do País, a vontade de ditar o que é correto neste momento ou se deparar com negacionismos da ciência também pode causar revolta", ponderou.
Isabel aposta na desconexão (das redes sociais) como uma forma de escapar da inveja ou da revolta. "A gente tem que praticar momentos de desconexão das redes sociais. E prestar atenção em como são nossas interações virtuais. Não paramos para pensar no que estamos sentindo nas redes, se isso nos serve, se devemos continuar seguindo certa pessoa ou o ideal fazer uma ?limpa?."
O psiquiatra Davi Urias Vidigal, autor do livro Quem Mexeu na Minha Deprê, afirma que não podemos negar a inveja, mas é preciso tentar trocar a inveja pela admiração. "A admiração serve de estímulo. Ela pode ser um combustível para a pessoa melhorar em todos os aspectos. Já a inveja causa patologia psiquiátrica e adoece o invejoso", diz.