Cultura

Raridades de Tom Zé

Julio Maria
| Tempo de leitura: 2 min

Criador de uma das linguagens mais particulares da música brasileira, Tom Zé acaba de ter a produção menos visível de um importante período de sua vida, compreendido entre 1969 e 1976, organizada pelo pesquisador e jornalista Renato Vieira. O álbum "Raridades" traz 14 faixas de gravações que poucos ouviram, recuperadas dos arquivos das companhias RGE e Warner, que hoje detém os registros da Continental.

Tom gravou alguns compactos simples e canções para projetos especiais que não tiveram vida longa ou se tornaram apenas versões para colecionadores. Dispostas cronologicamente, é possível entender o desenvolvimento de seu pensamento musical desde o momento posterior à sua vitória no IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, até o ano em que lança Estudando o Samba, o álbum que levaria 14 anos para ser valorizado, a partir de um lançamento feito pelo roqueiro David Byrne.

João Araújo, que viria a ser um dos criadores da Som Livre, havia acabado de levar Tom do selo AU, Artistas Unidos, para a RGE. Sua estreia, recuperada por Renato Vieira, foi justamente com um compacto simples que trazia Você Gosta, uma parceria com Hermes de Aquino, no lado A, e Feitiço no B, as duas com arranjos do maestro Severino Filho. O fogão na letra de Você Gosta, segundo Tom, não era por acaso. "Era símbolo da primeira revolução industrial de Irará": "Eu sei / Que você não gosta de magoar seu coração / Mas quando eu estou em casa / Derrama leite no fogão / Enquanto boto o açúcar faz o café derramar", diz a letra. "Isso tudo estava presente, assim como o que canto em Feitiço", diz o compositor sobre a canção tropicalista.

"O mercado exigia esse formato, o compacto. Era uma forma de vender as músicas que iam para os festivais. Só depois, eram lançadas em LPs", diz o jornalista do Estadão. Outra passagem por um festival viria logo depois, com duas músicas inscritas agora no V Festival de MPB da TV Record. Tom competia com Jeitinho Dela e Bola Pra Frente, que seriam gravadas às pressas também em compacto. Jeitinho Dela tem um sabor ainda mais especial: registrada ao vivo no festival, Tom Zé, em versão raríssima, canta ao lado dos Novos Baianos, grupo que devia uma porção de sua existência a ele. Foi Tom quem apresentou Moraes Moreira, o motor intelectual da formação, ao poeta Luiz Galvão.

"Pensei em montar em ordem cronológica para o ouvinte acompanhar como se desenvolve a linguagem do artista. Com o passar do tempo, lá por 1970, 1971, ele se aproxima mais do bolero e do samba", diz Renato. Além da percepção estética, os movimentos são regidos também pelo contexto social, colocados sempre em crítica contundente e indireta.

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