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Trânsito brasileiro, há o que comemorar?

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 2 min

No Brasil, anualmente, de 18 a 25 de setembro, transcorre a Semana Nacional do Trânsito. Neste período, ações são empreendidas por órgãos do Sistema Nacional de Trânsito com o objetivo precípuo de conscientizar os diversos atores envolvidos. A cada edição, o Conselho Nacional de Trânsito define um enfoque. Em 2020, o tema é "Perceba o risco, proteja a vida", que evidencia os perigos no trânsito. Mas, como vai indo o trânsito do Brasil? Há algo a se comemorar?

Dados produzidos pelo DataSUS/Ministério da Saúde apontaram queda de 43 mil (2011) para 30 mil mortes (2019) por acidentes de trânsito por ano. Esta redução na quantidade de vidas ceifadas precisa ser vista com muita cautela, pois o número de mortes vem oscilando na década. Em parte, a redução é fruto de ações implementadas pelos três níveis de Governo, através de campanhas educativas, que abrangem o Maio Amarelo, Semana Nacional de Trânsito etc. Mas, também, não se pode deixar de citar, a fiscalização da Lei Seca; avanços da segurança veicular; bem como medidas de Engenharia de Tráfego, como concessão e modernização de rodovias. Melhor atendimento pós-acidentes ajuda salvar vidas também.

Cada vida poupada é razão para augúrios. Mas, não se pode festejar um trânsito que ainda ceifa a vida de mais de 30 mil pessoas por ano. Há muito ainda o que ser feito para humanizar o trânsito. Alguns graves problemas persistem, como o alto número de inabilitados. Por exemplo, em Roraima há três vezes mais motocicletas que condutores habilitados. Altas velocidades em áreas urbanas ainda representam sérios perigos, principalmente para os usuários mais vulneráveis.

Acredita-se, no entanto, que o fator preponderante para a amenização dos riscos do trânsito tenha sido o período recessivo que o Brasil vivencia, contribuindo fortemente para uma menor mobilidade nacional nos últimos anos. Essa tendência de redução, inicialmente, precisa ser consolidada e progressiva. É necessário, adicionalmente, um esforço hercúleo para consolidar a cultura de segurança no trânsito, muito incipiente no país. Somente através dela, conseguir-se-á elevar a consciência das pessoas em relação aos elevados riscos e a necessidade de condutas responsáveis no trânsito.

Por fim, técnicos da área são enfáticos na defesa da criação de uma Agência Nacional de Segurança do Trânsito, com recursos suficientes e autonomia para gerir este setor tão importante, cujas externalidades negativas chegam a atingir 3% do PIB brasileiro.

Todos os esforços precisam ter continuidade, além de outras ações a serem implementadas. Uma delas é a Visão Zero, hoje disseminada em vários países, com o princípio ético de que é inaceitável uma pessoa morrer vítima de acidente de trânsito.

O autor é engenheiro, professor titular aposentado da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e docente do curso de Engenharia Civil da FIB.

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