Articulistas

O passado manda lembranças

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Há quem diga que a vida, como sucede à escola, é igual para todos nos valores do tempo. Ainda assim, cada aprendiz da experiência humana, qual ocorre no educandário, estagia provisoriamente em determinado caminho de lições. Adolescência - ah! - masca dúvidas, veste superlativos. Feicibuqueia curiosidades, sorri belezas morenadas em cachos e coxas. É o passo desobediente à procissão. O descaso da argumentação em palmadas. A insistência elástica por explicações que ruminam revoltas inconscientes. É a ação tensa e aflitiva muscular.

Sabedoria chama velhice. Chama do que crepitou, do que se fez luz absorvida. Do idoso que, embora reconheça a medida de seu mundo em calendários, relógios e consultas geriátricas, ri a vida por emprestar à refeição açúcar no lugar do sal, vestir avessos, escovar com pomadas. Aos que vivem em estado de vírgulas, por espaçar suas conversas. Aos de parênteses, por abrigarem a explicação gorda dos silêncios monótonos dos olhares regalados, que desentulham inquietações. Aos de interjeição animada, pegados no truco e na pinga, que amam, perdoam e auxiliam sem gradação. Aos notívagos, que cospem um muxoxo de desdém pra tudo. Aos boêmios de vinho fácil e pão incerto, o inevitável ponto final. Assim, se toda saudade é um estado de velhice, viver é visitar memórias pintadas a óleo para resgatar novas lembranças.

Do idoso doente, de imaginação claudicante, sequestrado por uma ingratidão de vida, que mais lhe tirou do que lhe deu. Das distrações sonegadoras de paz, por se submeter a uma vida de falas, de gestos antecipadamente decididos. Viúvo de esperanças, por morrer aos poucos da indiferença familiar e do descaso social, da incapacidade de se comover diante de um sorriso de uma criança.

Contemplo a sabedoria da velhice com o silêncio costumeiro de uma missa. Costumeiro quanto às manchas cor de terra em mãos de filosofias exatas, que receberam, afagaram e suportaram o fremir da vida. Tão costumeiro que as mãos, repousadas na mesa a cerzir companhias, recebam o entardecer da vida escorrer em rugas. Mais costumeiro ainda, tão mais costumeiro que, ao receber o entardecer, reconheça um resíduo de manhã, preso no ponteiro maior do relógio, que ficou assistindo à Primavera chegar.

O autor é professor do colégio Tesla, autor de antologias, artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa. (alexandrebenegas@gmail.com)

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