Incomoda muito esta expressão que vem sendo adotada por muitos para tentar definir nosso futuro no pós-pandemia, em especial nas atividades de trabalho e na forma de comunicação entre as pessoas. Sim, temos uma vida temporariamente atípica enquanto não for descoberta a vacina da Covid-19: afastamento social, máscaras, abalos na economia, rodízios, trabalho, home office etc...
Mas isto é o anormal que vivemos. Temerária e precipitada a imposição de que não há mais no pós-pandemia o mesmo espaço para as relações de trabalho, inclusive na atividade pública, com a maioria dos serviços fadados a serem definitivamente prestados em home office. Primeiramente, este alegado "novo normal" existe no Brasil há mais de 25 anos, quando o telefone móvel (inventado em 1970 pelo engenheiro da Motorola Martin Cooper) interagiu com a Internet no final de 1994 e, desde então, a Internet só evoluiu. Tudo seguiu a evolução normal que a humanidade experimenta desde a invenção da roda. Da telefonia móvel da 1ª geração (1G) analógica em um passe de mágica chegamos à telefonia móvel (4G) com banda ultra-larga, com acesso à Internet para notebooks, smartphones e outros equipamentos e hoje estamos às portas do leilão da telefonia 5G. Enviar mensagens, vídeo-chamadas, vídeo conferência, pedir um táxi, pagar uma dívida, pedir comida, ouvir música, sempre foi possível muito antes da pandemia. Esta revolução nunca foi desencadeada pela pandemia, sempre seguiu a normalidade. Então, por que até hoje a maioria das atividades não eram home office? Simplesmente porque isto não é normal. Tudo tem que ocorrer no momento certo, os oportunismos de lobbys para se beneficiarem de um evento trágico como a pandemia que vivemos é inaceitável. Por que as empresas até inicio de fevereiro deste ano possuíam sedes com porte necessário a alocar seus funcionários? Por que o Estado gastou até então bilhões com construção de prédios públicos (muitos deles suntuosos) para alocar o servidor público?
Ora, nunca existirá lógica que as sedes físicas tornem-se desnecessárias de um mês para outro. O ser humano precisa do mínimo de convivência com seu semelhante e nem todo trabalho é próprio de ser à distancia e esta lógica sempre foi observada. O normal do trabalho é no local físico, exceto atividades que são próprias do universo online. A continuar esta mentalidade do "novo normal", teremos nova divisão de tipos de cidadãos brasileiros: os que acordam às 5 hs da manhã para prepararem suas marmitas, encararem as lotações dos transportes públicos, trabalharem exaustivamente e retornarem para casa nos mesmos transportes público lotados e os que passarão a trabalhar sentados em praias paradisíacas, home office, ou melhor, "beach office".
Vai faltar praia...
O autor é advogado, colabora com Opinião.