Tribuna do Leitor

Decoada no Pantanal

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril, professor universitário, aposentado
| Tempo de leitura: 6 min

Na semana passada pensei em escrever um texto para ser publicado no JC de domingo, lugar adequado para quem escreve excessivamente transpor os 5 mil caracteres, necessariamente limitados pelo redator-chefe Jabbour afim de bem disciplinar as cartas que por ele passam. A coluna Tribuna do Leitor, publicada na página 22 das edições domingueiras, é tão democrática quanto a outra estampada na página 2. Além disso, aceita maior número de caracteres. A identidade das duas colunas não é rompida com a diversidade da natureza do enredo, composto por amadores arquitetando ideias de conteúdos diversos, em regra, de maior extensão. A propósito, aproveito o uso da palavra democrática para imitar meu amigo professor Joaquim ao dizer, certa vez, desconhecer lugar mais democrático do que a feira-livre, ambientada por todas as pessoas, sem discriminação, tanto consumidores como vendedores somados a outra categoria que ali vai somente à passeio e papear rapidamente com conhecidos eventualmente encontrados. Mas, antes que a minha idéia se perca no esquecimento que conspira contra a memória de alguns idosos, eu entre eles, li na coluna Fórum dos Leitores do "Estadão", uma objetiva explicação de decoada. Esse é o título do texto, escrito pelo autor com clareza e didática dizendo da origem do fenômeno nascido das cinzas deixadas pelas dramáticas queimadas do Pantanal.

Desconhecia o significado da expressão decoada antes de viajar e admirar o pantanal, talvez, tal como ele nasceu, atraente e exuberante na sua origem quase imaculada antes que o homem lá chegasse levando o progresso e com ele, a degradação, mas, por ser grandioso e resistente, o bioma ainda preservou o seu aspecto natural e selvagem. Realizei dezenas de viagens no espaço de 30 anos aquele aprazível lugar. Quando uma fração da viagem de caminhonete era noturna, ao receber o facho da luz do veículo, a estrada então de terra batida no trecho entre Miranda e o rio paraguai, revelava sua utilidade dividida com ofídios, predominando as sucuris, jacarés, tamanduás, cotias, antas, tatus, cervos entre tantos animais cruzando ou vagando na estrada, forçando o motorista diminuir a velocidade do veículo, contornando atropelamentos. Muitos animais não escapavam do perigo, e impactados, eram lançados sem vida no acostamento da estrada, servindo na manhã seguinte de banquete para animais e aves carniceiros. As capivaras, bastante sociáveis e sempre agrupadas, dormiam na estrada de terra, aquecendo-se no leito que retinha o calor de mais um dia de sol causticante. Segundo contavam os pantaneiros, a despeito desses animais viverem em território alagado, gostavam de dormir em lugares mais quentes. Pegoraro, Lu Pegoraro, Cassiano, meu filho, todos comigo na caminhonete, ainda conservam na memória uma cena que não se repetiu para nós e, dificilmente se reproduzirá para os olhos de outrem mercê da incessante desfiguração do bioma causada pela ação deletéria do homem contra a mãe-natureza. Do interior da caminhonete, em trecho mal conservado da estrada que exigia marcha reduzida, Lu Pegoraro disse ter visto um tronco de árvore se mexendo dentro da água do pântano ladeando a estrada. O veículo foi estacionado para o cenário melhor se visto e, logo enxergamos o dorso de uma sucuri preguiçosamente mergulhar nas águas. Calculamos que o dorso do animal tinha 40cm ao ser comparado com vários troncos de arbustos juntos ao ofídio. Há tempos, aquela estrada está asfaltada, o trânsito de veículos cresceu em demasia, máxime no vácuo da extinção do transporte de passageiros por via férrea, fato coincidente com a redução gradativa da estação das chuvas. A escassez da chuva e o sol inclemente transformaram as águas do pântano que distavam 100 k do Rio Paraguai em vapor. A mata típica da região colorida na primavera nas matizes rosa e amarelo dos admirados ipês, não mais floriram como antes castigados sem piedade por cíclicas queimadas. Os animais de vida alimentar noturna deixaram de ser ícones daquela vasta região, fugindo do movimento dos veículos e predadores humanos. A minguada chuva anual baixou o leito do rio Paraguai, dificultando a navegação das barcaças transportando minério, riqueza natural de Mato Grosso. Os peixes, há 10 anos, estimativamente, desapareceram do rio paraguai, um dos mais piscosos do país. Tudo mudou para pior deixando a transformação um rastro de desconfiança de que nada mais será como antes. O que sobrou descortina a destruição do belo de inevitável presença anual e comprovada nas devastadoras queimadas que se reproduzem cada vez mais hostis e implacáveis.

Conheci a primeira decoada no rio paraguai na década de 80. Toneladas de peixes mortos e agonizantes boiavam no espelho das águas nas duas margens do rio. Assim era o cenário durante dia e noite. Os peixes das profundidades, os de couro, como pintados e jaús, eram os que menos apareciam na trágica descida das águas, talvez porque o agente químico causador da morte não atingisse as profundezas do rio, reduto daquelas espécies. Marcava com estranheza nos peixes de escamas os olhos saltados do orifício ocular. Antes e depois da decoada a pesca com caniço era improvável, frustrando os pescadores que desembarcavam no rio paraguai saudando a chegada ao esperado lazer. Qual seria a causa da decoada, renovada quase que anualmente? Os piloteiros mais antigos e os inativos desse ofício em função da idade, juravam que o aguapé, uma planta flutuante mais conhecida na bacia pantaneira como camalote, que se reproduz em quantidade vertiginosa, na época da seca em que as águas do rio baixam consideravelmente, ficam presos nas raízes expostas de árvores e galhadas nas margens do rio. Ali secam no longo período de estiagem. Na enchente do rio, as águas voltam às margens e carregam a planta seca, contendo o agente tóxico letal à vida marinha. Contra esse argumento sem sustentáculo nas pesquisas, mas espalhados como verdade pelos que ainda creem nessa lenda, há outro que explica de modo mais convencedor a origem da decoada. Na estação de chuvas, as águas, varrem toda a cinza das queimadas para a região mais baixa, despejando essa mistura de água e cinza que as antigas senhoras mais carentes usavam para fazer sabão de cinza, nas áreas de alagamento e rios pantaneiros. A acidez dessa mistura -capaz de derreter gordura para fazer sabão- no dizer de Sérgio Barbosa "Estadão" 20/09/20, possui a ação da soda, confiscando o oxigênio das águas, o que justifica, satisfatoriamente, a mortandade de peixes habitantes das águas contaminadas. Em fase anterior a essa iniquidade, quando pequenos e raros focos ardentes surgiam antes das chuvas que ciclicamente faziam do pantanal um alagadiço permanente, o solo era queimado como preparativo para nova pastagem ou plantio. Fazendeiros e colonos cuidavam de impedir que o fogo se lastrasse além da propriedade.

Não havia notícias de queimadas criminosas e o pantaneiro tinha o controle do fogo nas queimadas planejadas. Crime e descontrole das queimadas criam um ambiente de horror com abnegados combatendo as chamas com poucos e parcos recursos e os animais queimados vivos no desespero da sobrevivência. Ontem a noite, o presidente da República expôs no noticiário da TV o discurso gravado para a ONU. Em defesa de seu governo disse que o país é vítima de desinformação sobre as queimadas do pantanal e da Amazônia. Acredito no que vi, na versão da realidade. Desacredito no que ouvi, na versão política do presidente.

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